quarta-feira, 23 de julho de 2025

Tanto venho à procura do ar fresco no calor, que me constipo.
Sim, tenho a plena consciência de que uma constipação noutras línguas significa outra coisa, mas nesta minha realidade tendo a ser nacionalista. Os eucaliptos talvez estejam a ajudar ou a piorar, pois esta treta já me faz estalar o ouvido.
Os auscultadores lá me vão criando alguma paz na inconsistência de, num lugar de paz, tal igreja ao ar livre, os corta-relvas ressoam.
Não posso ir para a igreja procurar paz a ouvir música pois com certeza seria excomungada.
Então por aqui fico, com o livro a querer chegar ao fim e outro na mochila: curiosamente "A Voz do Silêncio".
Aguardo com ansiedade que os homens, que estão a ganhar o seu tostão e bem, terminem de evidenciar, na lama que ficou da rega automática, o resto dos buracos do pântano. Eu, que nada sei disto, pergunto-me se não haverá problemas na engrenagem das máquinas com a terra e a água lá no meio. Parece-me também que os reservatórios ficam mais pesados e as máquinas mais difíceis de empurrar. Tenho essa impressão de que já passaram centenas de vezes no mesmo lugar, não será ferrugem no corta-relvas?
Bem, adiante, a música até está boa, diferenciada e nada que me impeça, de facto, de ir à igreja.
Era já demasiado crescida quando me deu, pela primeira vez, a vontade de ir molhar os pés ao pântano num duche de vai-e-vem dos repuxos da rega automática.
E falando em constipações, coitados dos homens que devem estar ainda pior do que eu: meios surdos do barulho das maquinetas e sujeitos a levar com a frescura da brisa depois dos banhos de rega. Deve fazer crescer pêlo na benta!

terça-feira, 23 de abril de 2024

Dei-me um nome diferente,
Esperança de não pensar.
Não pensar que por ser gente
Devo a vida a um pesar.

Então, no consolo de mim
Inventei identidades
Pensei que seria assim
Que ressentisse verdades.

Viro as costas a este mundo
De costas para o espelho por trás 
Sem olhar procuro o fundo 
Daquilo que sou capaz. 

As tílias são de outra terra
De outra ilha que deserto
E eu não sei que bicho ferra
Nem de coração aberto.

Doei-me um nome diferente
Ninguém sabe o quão antigo,
Mas não vou olhar de frente
Se o espelho é meu inimigo.

Um contratempo a que digo,
"Um dia de cada vez"
Mas penso para cá comigo
Não fui eu quem me desfez.

Essa vergonha que têm 
De tudo aquilo que escrevo,
Só por me crer desarmada
Não digo que tenho medo. 
Não tenho medo. 

quarta-feira, 30 de agosto de 2023

E alguma vez me perguntaste porquê?
Porque se o tivesses feito fugiria à bruxaria para te dar razão.
Mas nem àqueles sonhos, infortúnios,
Previsões subjugadas,
Até aos que para mim guardo,
E às palavras mal amadas,
Nem nas ditas com castigo, a mim,
Encontro refúgio.
Então porquê perguntares-me porquê,
Se nem sequer eu já me leio,
Quem mais será que me lê?

Já nem quero dormir, que adivinho coisas,
E se sorrio, temo pelas razões.
Sinto-me amaldiçoada pelas minhas emoções
Que na frieza das palavras que profiro ninguém vê.
Faz um favor a ti próprio,
Deixa-me neste relento
Que o silêncio da tortura que encontro na solidão
Não é o que me traz alento.
Mas faz um favor a ti próprio e não me acordes, mesmo no meu não adormecida
Nem ouses sequer perguntar-me "porquê". 
Nem o perguntes à vida. 

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023

Preenchem-se de pretextos
Essas cadeiras vazias,
Vão com sentires e azias,
E outros mais-quereres desfeitos.

De tudo se fala um pouco
Borbulha d'entre as paredes
Discutem fomes e sedes
Ao ponto de eu parecer louco.

Só haverá necessidade
De eu, deitado, vir a ouvir
Alguém a chorar ou rir
A gritar em liberdade

Se alguma coisa disso
Puder eu vir a fazer,
Mas não pretendo, nem crer,
Em tamanho reboliço.

Ai! basta de converseta,
Tempo em tagarelada!
Nem tão alto há cão que ladra
Nem tão fundo a faca espeta.

É que isto de querer paz
Fica só dentro dos sonhos.
Estes hábitos medonhos
De falar pelos cotovelos
(Só para se ser escutado,
Qu'isso faz o mal amado,)
Não quero ouvi-los nem vê-los!






quinta-feira, 12 de janeiro de 2023

É que realmente o amor está a escassear com o mundo. Todos pensam no dinheiro. Que máquinas! E nós que julgáramos que viriam os robôs no século XXI e afinal andamos aqui feitos homens de lata em busca de um feiticeiro de Oz, ou de dós, mas não em busca de coração. 

Rais partam os desamorosos que por se acharem demorados nas suas pressas se esqueceram que é preciso muita lata para se esquecerem do valor da empatia. E se invertessem a história, desamarelariam o caminho, fariam-no mais verdinho, reluzente, fértil. 

Rais partam os demorados que se fazem cheios de pressas, não sabem que perdem o óleo que lubrifica a reflexão às antagonias. Que delas nem sequer vivias.

Quais robôs, homens de lata, perde-se o amor no caminho desmantelado até ao feiticeiro de Oz que o tornará facilitado. Que esse lubrificante, não traz amor de repente, nem coração desalmado. Até o menino vê sangue quando cai e fica aleijado. 

Rais partam o homem de lata, as máquinas, os robôs! Não somos feitos de prata e até o amor tiram de nós!

sábado, 19 de novembro de 2022

Talvez as guerras de cada um sejam pequenas demais para mover mundos, mas e se para irmos à nossa pequena guerra também tivéssemos que nos mover no mundo. Seria tão mais fácil se conseguíssemos agitar o mundo de forma a não ser preciso fugir de casa para ir para a guerra. A nossa casa ficaria mesmo ali ao lado. Mas essa ideia de que a nossa casa fica mesmo ali ao lado faz temer o improvável, faz pensar que por causa da nossa pequena guerra tenhamos que não voltar lá. É que parece que a nossa casa fica mesmo ali ao lado. 

Talvez as guerras de cada um sejam pequenas demais. Mas criam fossos abismais que um qualquer cavalo alado não conseguiria ultrapassar. Essa distância a que as guerras nos obrigam, a atravessar pontes e estradas de alcatrão mal refundido, só para ouvirmos uma canção de embalar. As guerras fazem crescer, sim, mas e se eu quisesse ficar pequenina ao ponto de voltar a poder aconchegar-me no colo da minha mãe ou do meu pai ou dos meus irmãos? 

Não quero ir para a guerra. Não quero.

Mas aqui estou, nas trincheiras, preparando futuros soldados nesta luta que ainda a mim, já grande demais para o conforto de um qualquer colo, me custa.

Talvez os soldados sejam pequenos demais. Talvez as trincheiras sejam desiguais. Talvez a exposição a que me subjugo seja por querer um futuro melhor e sem guerras. Mas enquanto há terras, há guerras. Enquanto há trincheiras, haverá tropas fuzileiras. Vou na primeira levada, na segunda, na terceira, com o temer de não haver mais casa, a tremer na falta de conforto que ameaça pelo medo de perder um lar. Mas não há outra forma de acabar com as grandes guerras senão ir em primeiro lugar, sem saber qual o lugar, voo no meu cavalo, que pouco ou nada tem de alado, mas que me leva de volta, quando eu o chamar. A casa. Ao conforto do meu lar. Ao colo. Entre as trincheiras. Debaixo do solo. 

quinta-feira, 21 de abril de 2022

Hoje deitei-me nas trincheiras, escondida de duas ou três guerras.
Fiz a cama em insónias acumuladas com a falta de momentos.
Aprendi que as palavras não se usam como noutros tempos,
E preparei o posto de vigia entre as serras.

Talvez não devesse escrever sobre conflitos
Hoje deitam-se eles impotentes mal entendidos,
Aqueles que se perderam, estão perdidos
Não foi vento na memória, não foram choros nem gritos.

Dormirei em buracos na terra,
Cada um ou cada qual com sua guerra
Intermitentes sonhos me dirão,

Se cada qual tem paz na sua história,
Re-nego que foi vento na memória,
Entre as trincheiras sonharei ou não.

Ana Rodrigues

21.4.2022

quarta-feira, 13 de abril de 2022

Dizem que não custa andar à chuva
Que só se molha quem quer
Dizem também que toda a vida é luta
Doa a quem doer.

Dizem que chorar faz bem, 
Que alivia a alma
Dormir em paz, também,
Traz-nos mais calma.

Quem sabe não diz,
Talvez seja, assim, mais feliz.
Quem sente não chora,
Às vezes. 
Dizem que a dor demora mais a chegar,
Talvez se seja assim mais feliz.

Dizem que quem dá nada tem a pedir,
Dar é dar, não é troca.
Dizem que quem pede sem precisar,
Não tem mãos a medir,
Não tem onde guardar. 

Aquilo que dizem a mim, pouco me importa
Nada me faz acontecer.
Contar contos dos outros são só aqueles da família
E até esses já tendo a esquecer.

Cubro-me dos pés à nuca,
Mesmo sem estar nua
E às vezes faz cá dentro mais frio
Que o que faz na rua.

Dormir em paz é o barulho de muitos
O silêncio de alguns
E a loucura de outros tantos que se somam.
Encostada ao meu peito, 
Espero sonhar quando adormecer.
Faz-me chegar e partir,
Faz-me partir e voltar,
E sem sair do lugar,
Ajuda-me a viver.

Aquilo que dizem a mim já pouco importa
Daqui a nada ou acordo, ou não
Sonhar acordada faz-me sentir morta,
E dormir sem paz, solidão. 







domingo, 3 de abril de 2022

 Dias que se passam sem ideia do que será capaz de nos tranquilizar. Domingos atentos aos mais variados sons porque o dia de trabalho é em casa ou porque simplesmente na má fé de se manifestarem presentes, fazem barulho. Domingos, dias de trabalho. Lavar, aspirar, varrer, estender roupa nos esticadores enferrujados que chiam como um bicho qualquer sofredor. 

Há também os domingos que são dias de passeio, de missa, de cruzar o faz de conta nos cumprimentos maliciosos que se dão a pessoas que já lhes foram próximas, ou que de alguma forma, lhes causam inveja. São domingos de passear a vestimenta mais bonita juntamente com os sorrisos mais falsos. 

Não é bom julgar a dor dos outros, ainda pior é achar e bater o pé dizendo que as próprias dores são sempre as piores. 

Há domingos em que os cães uivam. E esses domingos duram quase a semana toda. Os domingos de descanso também existem, mas os aspiradores e os sofás a arrastar entre outras coisas que tais fazem valer o trabalho de quem não faz mais nada da vida senão trabalhar ao domingo para depois se pavonearem no café a gabar-se do trabalho que tiveram. Se calhar até foi bastante, mas de sagrado nada tem a não ser que ofereçam a Deus os sacrifícios e que peçam perdão pela coscuvilhice alheia do resto da semana. Com os aspiradores e as máquinas e as vassouras e afins não sei se Deus conseguirá ouvir, mas que Deus os perdoe.

Peguei na guitarra para não ouvir os uivos dilacerantes dos cães, que a 3 ou quatro blocos de casas auferem uma dor superior à dos que trabalham, seja ao domingo, seja nos outros dias da semana. Respeito-os. Tomara que o respeito fosse mútuo. 

Pois peguei na guitarra porque não sabia já o que fazer para me libertar da quantidade de trabalho que trago para casa ao fim de semana. Não sabia se haveria de escrever, de cantar, de gritar ou de uivar como os coitados dos cães que se sentem abandonados (só não queria ouvi-los, sentem-se as dores mais profundas ao partilhar deles a mesma solidão). Mas assim foi, peguei na guitarra e comecei a uivar. Ao fundo as máquinas pararam, os aspiradores desligaram-se, os esticadores dos estendais da roupa deixaram de se ouvir e pareceu-me, de perto, ter ouvido um "Chiiiiuuu". Dois "Chiiiiu". Carreguei mais nas cordas para tentar ouvir o terceiro. Não houve terceiro. 

Arrumei a guitarra. Meia hora da modinha do "caga-cão" a imitar os uivos dos cães da vizinhança surtiu o efeito que à partida eu pretendia.

Mas de muito perto do lado de onde vieram os "Chiiiiuuu", continuam as máquinas, os móveis e os aspiradores. 

Desisti. Mais logo volto a uivar. 

quinta-feira, 31 de março de 2022

Foram já bastantes as situações em que, de um monte oriundo de silêncios e conversas com os comigos de mim, nada surge. Dizer que a velhice incorporada na quarta década de idade nos confunde ou nos substrai parece mal visto por aqueles que nos rodeiam. No entanto, ainda ficamos pior vistos perante quem somos ou quem julgamos que já fomos. 

Escrevo agora para me desculpar e tentar redimir aos comigos de mim que me acompanham no quotidiano mas que não têm de mim a devida atenção. Sinto-lhes falta, mas não me resta senão aumentar a espessura da redoma que nos separa. 

Talvez seja assim a vida ou a morte aos poucos. Limitadas ao morrer um pouco para viver o que tiramos à vida. Concentrar-me, então,um desgosto quase impaciente contra o qual nós obrigam a ser resilientes porque tu és só um e mais ninguém, "escolhe quem queres ser, escolhe que história queres escrever de ti, tens que escolher. Pois nunca terás a tua própria biblioteca ou quem ta leia". 

Estou guardada numa coluna, mas não me encontro lá. Um porto de abrigo onde me aqueço, quando há tempo. Mas nunca há tempo. 

Há também os que dizem "não vás por aí", mas não sabem nem julgam que talvez já conheçamos demasiados caminhos que já só "tanto faz, já sei onde vai dar". 

Sinto falta de uma viagem de comboio sem pressas, de um destino sem esperas, de um ir sem ter quando voltar. Sinto falta de um querer mais que um bem querer apesar de não ter nada para dar. 

E, em simultâneo, dá vontade de parar, de esquecer, de esquecer que se deve o que não se deve, e de lembrar que só devemos dar o que há e nada mais. 

Procuras a solidão na tua companhia, mas não sais porque já não conheces quem te acompanha, e por isso reconheces que o melhor é ficar no calor dos lençóis que, ao menos, mesmo que demorado, vão retribuindo alguma coisa ao corpo trémulo que só desejavas ver incandescente. Tu e os teus contigos de ti. 

Eu fico aqui, com os desconhecidos, a tecer desrealidades virtuosas motivadas por outras realidades que talvez sejam as mais verdadeiras. 

Eu e os comigos de mim.



quinta-feira, 29 de julho de 2021

Sei-me inteira, mulher de corpo e mente, mente que sonha e corpo que desmente, mas assim me faço. E tantas outras. Sei-me de calor e de frio se for o caso, e em qualquer acaso de febre deliro. Nos meus sonhos o suspeitei, nos pesadelos, então, nem mais digo, presa entre um consciente de saber quem sou ou o que sou e um inconsciente que o desmente.
Sei-me inteira e insegura, de esqueleto raso, completa, sei-me mulher, excêntrica, indiscreta, discretamente me desafio a ser. A ser-me.
Sei-me crónica numa mesa de pastelaria onde não vou, textos guardados e perdidos, por um café que se derrubou, há anos.
Sei-me poema de leitura difícil, de impossível interpretação, não sei ser lida com o peito, quanto mais com a razão.
Sei-me prosa esquecida, sem pontuação. Sei o que não sei de mim, só não sei o momento de o procurar, ou onde, porque de resto sei-me tudo.
E de tudo o que resta de mim, ainda não sei mais nada. Não sei se sou noite, manhã, tarde ou madrugada, revelo-me com o sol crepuscular ou com as noites sem lua. E não tenho medo de, perante mim, posar nua. Porque no espelho nada mais vejo que o espaço que ainda tenho para me saber mais. 

segunda-feira, 12 de julho de 2021

 Ai.... A liberdade. Palavra proibida nos tempos que correm. Somos livres quando somos crianças, e levamos o balde e a pá para construir o castelo dos nossos sonhos. Com areia da praia, é certo, mas aí sim, somos engenheiros dos nossos próprios desmoronamentos. Deitamos abaixo para construir mais. Ai. Essa, essa liberdade. Não sabia quando, mas ia. Levavam-me. E na areia da praia fazia a minha cidade. Na minha liberdade.

Não sabia quando, mas ia. Levaram-me e lá fiquei. A fazer castelos na areia. Engenheira da minha própria torre. E a liberdade vai com as ondas na maré vaza. Fica a vontade de ser pequena e não ter vergonha de ir buscar areia no meu balde. Mesmo que houvesse medo de ir buscar água para molhar a areia que entretanto secava.

É. Sou grande demais. Fica a saudade. Os baldes são maiores, não trazem nem levam só areia. Será assim tão imoral, serei assim tão anormal ao ponto de não conseguir querer mais recordações? Ser pequena era tão bom. Engenheira das minhas construções. Tenho medo de ser grande. O balde pesa. Guardo neles sonhos. Sem grandes castelos, já. Vontade, só de os enterrar na areia para mantê-los. Depois, nem vê-los... 

sexta-feira, 2 de julho de 2021

 Vim de viagem, daquelas onde não se pára senão no destino, e trouxe comigo as bagagens todas. Trouxe comigo as que pesam e as mais leves, e também aquelas que não se vêem. Conduzi-me desde a partida a tirar as medidas às nuvens, a fazer desenhos, talvez a querer que lá fiquem para quando tiver que voltar, seja lá isso quando for, mesmo que seja já amanhã. Valeu-me que a bagagem que não se vê não ocupa espaço no carro. Ocupa noutros lugares.

No caminho escrevi coisas, talvez histórias a remendar as memórias, vim de coração cheio e corpo aberto e sedenta de guardar um pouco desses para mim mesma. Talvez um abraço.

Cheguei, mas as nuvens eram diferentes. Desenhavam-se perfis azuis no horizonte, por baixo de umas nuvens leves que lembravam mantas, e choveu. No fundo, sobrevivi, não deu grande tempo para mais.

Ser-me-á pedir-me muito desejar honestidade de mim para mim, pergunto...

É que as noites já começam a encurtar devagarinho e eu pouco sinto a luz do dia, na minha própria honestidade por vezes sinto que me minto.

São apenas coisas com que me conforto, as palavras: pequenas almofadas que afagam angústias. 

Como dizia alguém que já não conheço: "assim morre o desassossego no lugar onde a esperança já foi medo". 

quinta-feira, 3 de junho de 2021

No caminho para todas as praias que conheço em Portugal, ou pelo menos daquelas de que melhor me recordo, há sempre aquela casa pintada de cor de rosa no exterior. Lembro-me de, em criança, associar a casa cor de rosa ao "estamos a chegar". O momento da chegada embebia-se num aroma a maresia e a salitre, num cheiro que se prendeu na minha memória como a naftalina, mas melhor, num sentido melhor. Mas a casa cor de rosa. Os canaviais à beira da estrada e as suculentas que crescem na areia eram, para mim, o sinal de que o mar já estava perto. Hoje não reparei nesses pormenores que tanto me deixavam ansiosa na infância, hoje fui eu que levei o carro e não havia pressas. Estava sozinha, por isso também não houve grandes sorrisos. Ficou só o mar.

À medida que cresci, o mar foi perdendo ou ganhando créditos, as marés mudaram, e há mais praias.

Hoje talvez sonhe mais com o cheiro do regresso a casa depois das férias, ver as persianas corridas e a casa limpa e pronta para me receber. (...) 

sábado, 8 de maio de 2021

Sentámo-nos em pedras onde crescem aquelas flores pequeninas que lhes dão um tom rosa digno dos contos de fada. Não sabemos nem tão cedo saberemos o seu nome. Quando crescemos, redescobre-se o que é a amizade, e que é algo muito maior que as palavras com que a descrevemos aos mais pequeninos. No fim de contas, a amizade é o que vêem e recebem de nós. Às vezes é estarmos calados quando queremos falar e falar quando devíamos estar calados, mas sem imposições. Às vezes é sentarmo-nos naquelas pedras onde crescem as flores pequeninas que parecem cor de rosa mas que são afinal brancas, e imaginar que são azuis como o céu de onde se desvenda a sombra que é criada pelas nuvens nos socalcos. E às vezes a amizade é só isso, sem mais nada: uma palavra que, sem ser dita, se compreende, um abraço que sem se poder dar, se sente. 

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

 Querem os restos da chuva que continua a cair que eu me desfaça em peças, qual puzzle.. Quer a Senhora das Candeias que o Verão chegue depressa e também eu. Mas, no entanto chove, e o vento tão forte parece que leva Outono, Inverno, e tudo quanto é estação.

Eu, de momento, encontro-me estacionada e revisto-me de mantas, cada qual com a sua história. Uso-as para me cobrir do frio e para me proteger da memória. Uso-as para tapar a cabeça e para me refugiar dos fantasmas e ainda assim, afago-os. São amigos, requerem conforto.

É que nesta assíncrona do vento que sopra de sul com a chuva que cai de norte, a roupa não seca e a mente peca. Fico-me à espera do sonho entre o sono e de o conseguir recordar acordada. É que hoje temos tanto medo desses fantasmas como da vida que desaba, da peste. E sorrimos quando, do horizonte a resposta chega a cores: aquele perfume a tílias em que prendemos amores, e sonhos.

No fim, tudo o que passa disso são transtornos. Tornemo-os risonhos, não medonhos. Tornemo-os conquistas imprevistas. Sejamos quem somos, cada um por si, mas menos egoístas. 

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

 Esta tarde deparei-me a caminhar com uma vontade de sentir o calor do frio como há muito não subscrevia. Senti saudades. Na Avenida da Liberdade senti uma prisão aos sentires alheios que me entristeceu, que me fez duvidar da pseudo-vaidade que tinha em ser eu.. Não sei razões. Como alguém que deambula sem sonho fui-me rebuscar ao calor dos olhares dos amantes que se escondiam à vista de todos em bancos de jardim, e reluziu dentro de mim a saudade, quais luzes de natal no centro da cidade, senti saudades de mim.

Andei tanto quanto o possível, com medo de descer e não ter pernas para subir, juntei os meus trapos e os meus remendos e endireitei as costas, porque só assim se consegue olhar e ver, reparar na luz, na iluminação. Tudo o resto são sombras. Escreveria o livro da pandemia, o da pandemia e o do pandemónio, mas escasseia-me o tempo e não há cabeça para obras.

Fechei para manutenção antes que algo avarie, porque nestas luzes que o Natal traz, podem falhar uma, duas, que às três falha tudo de vez. 

Até qualquer dia em que me iluda. Em que o sentimento a minha alma desnude. Porque hoje, só hoje, caminhei em cima das minhas sobras, de costas direitas, passo largo e veloz, para não ter que ver, para não ter que reparar, porque tenho inveja desses amantes que não ligam ao pandemónio. 

domingo, 7 de junho de 2020

A razão de não ter razão desde que acordei esta manhã, deixou-me impertinente, e ao contrário do frio que se sente para fazer viés ao calor que já me tocou, não estou em equilíbrio. 
Disseram, como eu já perspetivava, que todos morremos jovens. Essa lengalenga que nos encosta à parede faz dissipar os sonhos que se revoltam contra a espada. Faz-me julgar que, no fim de contas, queria ser jovem, pois acho que já gastei todas as vidas. Não quero revigorar a minha demência em prol da de outrem, cada demência tem a sua ciência. Para quê ter razão, se necessitamos que alguém nos diga que temos. Guarde-se então a razão naquela caixa mais pequena e no lugar mais escondido, porque entre ela e a demência, é a segunda que tem mais ciência. 
Parei para escrever, de escrever, parei. O tempo consome-se e o muro continua feito buraco no chão, fissura de tal profundidade na qual caí. De um lado, espada, do outro, parede. 
Talvez a loucura me fizesse companhia se eu guardasse a razão que não tenho porque ninguém ma dá nessa caixinha de Pandora. Fico pela ciência da demência e mando a razão embora. 

domingo, 24 de maio de 2020

Quando quis permanecer não soube ficar
Quando fiquei, agora, tenho sede de fugir,
Acabei sentada em estilhaços, chorando para não rir,
Esperando, do mar, os seus passos, permite-lhe para me amar.

Acordei, deitada na areia, depois de um sonho macabro,
Renunciei ao silêncio, da palavra me fiz devota,
Parti o relógio com o tempo, porque só o mar vai e volta,
Não sei quem ficou de mim da ida, não sei onde mais acabo.

Testei o tempo, o corpo, no ser procurei guarida,
Quis revolver-me nas ondas, que só sonho, já não olho.
Tentei, juro, tentei, guardar o que foi nessa ida.

Quis escrever uma história inteira, como rosa que não colho,
Uma linda perspetiva de como se fica da fugida.
Do mar que me levou, além da palavra, nada ficou.
Do sonho acordei despida daquilo que o tempo matou.

Antes, eu, que sentia o sim, envolvo-me e visto-me em nãos,
O medo tomou o poder, já não sei ser.
Procuro no meio da areia, como concha, a minha alma,
Mas estou sentada nos escombros, que o medo levou-me a alma!

Fragmentos

Aqueles pedaços que fui deixando de mim, nas paredes, nas janelas,
Por onde passo e olho, se revestem de entradas e saídas.
Ficam os desaparecidos pelas quedas desprendidas,
E as recordações de mim já não encaixam por entre elas.

Fragmentos são grandes e pequenos, de estatura média,
Altos, baixos, fortes, magros, entorpecidos,
Fragmentos que não se encontram, estão já perdidos,
E a linguagem que já não volta tem curta a rédia.

Cacos de louça, de vidro, muitos tantos de cristal, tentei colar,
Para guardar as jóias que me sobram do desapreço,
Vagueei pelas ruas do medo sozinha para os encontrar,

Fui dar com eles soltos, e de esperança em mim padeço,
O querer fica mais fraco na vontade de guardar,
Todos os fragmentos que dentro do coração esqueço.