Vim de viagem, daquelas onde não se pára senão no destino, e trouxe comigo as bagagens todas. Trouxe comigo as que pesam e as mais leves, e também aquelas que não se vêem. Conduzi-me desde a partida a tirar as medidas às nuvens, a fazer desenhos, talvez a querer que lá fiquem para quando tiver que voltar, seja lá isso quando for, mesmo que seja já amanhã. Valeu-me que a bagagem que não se vê não ocupa espaço no carro. Ocupa noutros lugares.
No caminho escrevi coisas, talvez histórias a remendar as memórias, vim de coração cheio e corpo aberto e sedenta de guardar um pouco desses para mim mesma. Talvez um abraço.
Cheguei, mas as nuvens eram diferentes. Desenhavam-se perfis azuis no horizonte, por baixo de umas nuvens leves que lembravam mantas, e choveu. No fundo, sobrevivi, não deu grande tempo para mais.
Ser-me-á pedir-me muito desejar honestidade de mim para mim, pergunto...
É que as noites já começam a encurtar devagarinho e eu pouco sinto a luz do dia, na minha própria honestidade por vezes sinto que me minto.
São apenas coisas com que me conforto, as palavras: pequenas almofadas que afagam angústias.
Como dizia alguém que já não conheço: "assim morre o desassossego no lugar onde a esperança já foi medo".
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