Foi para matar o tempo que voltei atrás. A imensidão do suspense ao qual já não tinha alternativa emocionou-me. Peguei na faca que guardei e segurei-a com a força com que um leão agarra a sua presa, para que não fizesse ricochete, matei-o. Matei o tempo. A tempo.
Uma voz que no escuro se diluiu disse, e suponho que tivessem sido para mim essas palavras, "ELE AMANHÃ... ELE AMANHÃ....volta."
Dispersa no estremunhar do acordar, olho para o lado, e lá está ele, o tempo, para me medir os passos com compasso. Afinal foi só um sonho? Estou perdida.
Vi as vísceras do maldito a escorrer borda fora, cinzentas, negras como uma tarde primaveril que agoira temporal. Como é possível ele voltar? E amanhã? Aliás, hoje.
Mas teria que ser, decerto, um sonho. Quantas vezes não recorro ao tempo para lhe pedir mais, para lhe pedir para ficar, para não ir? Porquê esta ânsia de o matar? Esta relação de amor-ódio que nos separa e a aproxima relembra os romances efémeros em que acreditamos que o amor é o amor, e tudo isso se deve ao tempo, que quer ser mais veloz que lento.
Terei que pedir perdão? Terei que cumprir pena? Por, num suposto sonho, ter morto o tempo à facada, numa instância macabra? Quantas vezes me matou ele, o tempo, por esperar, por querer, por fazer, por passar, por amar? Quantas vezes terei morrido eu às mãos do tempo, que nessas alturas se fazia passar lento, lento demais, tal sofrimento.
E se o mundo estivesse a arder, do que serviria o tempo? Quando o mundo arde, ninguém se lembra do tempo. Ele passa. Ninguém o vê, ninguém quer saber do tempo quando o mundo arde, nem a que hora chega, nem a que hora parte, e esta deverá ser a sua vingança... Tal pujança...
E foi para matar o tempo que voltei atrás, o tempo do qual ninguém, mesmo que queira, se desfaz.
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