quinta-feira, 16 de abril de 2020

Era jovem, e aquele pequeno jardim sempre me fascinou. Era jovem eu, e hoje eram jovens as flores que o tornavam uma pequena selva de magnólias com maracujá e outras tantas plantas que não sei identificar, num aroma a tílias, com um piso de ervas daninhas que, se eu o conseguisse penetrar, me ficaria, de certeza, pelos joelhos. Mas sempre me fascinou. Costuma ser por esta altura do ano que o limpam. É apenas um pequeno jardim, meia dúzia de metros quadrados, num canto um tanque, e do outro lado um banco de baloiço. Uma mesa de plástico é visível do lado de fora do portão, mas não me lembro de alguma vez lá ter visto alguém sentado ou a fazer um lanche.
Apesar de sonhar muito com um espaço assim, compreendo porque não aparece nunca ninguém do lado de dentro do portão... Se eu alguma vez iria gostar de ter um espaço tão lindo e ter que o partilhar com os mirones que vão vagueando no passeio, e espreitam (como eu o faço, só para sonhar), para contarem o número de qualidades de plantas diferentes que cercam os restantes muros? Claro que não!
Um limoeiro de uma casa geminada deixou quebrar um ramo para a escadaria que dá acesso àquela que deveria ser a entrada principal da casa, talvez por isso ninguém saia. A casa é antiga, tem cerca de 3 ou 4 andares e é provavelmente do século XIX ou inícios do século XX. Imagino que, por dentro, se cuidarem tão bem da casa como cuidam do jardim, o estuque esteja a desfazer-se e cada degrau seja uma sentença de morte, mas talvez esteja enganada. De qualquer forma, prefiro pensar assim, pois nem o jardim, nem a casa são meus, e torná-los perfeitos neste meu sonho iria atiçar a inveja, maldita ela seja!
Aquele portão não deve ser aberto há anos. As pessoas que passam na rua têm o vício de deitar o lixo para a valeta que o separa do passeio... Lixo de todo o género, tipo e feitio. Que coisa feia!
É que a luxúria de desejar ter um castelo é daquelas coisas que só passam mesmo com a idade e com os problemas nas costas... só de lembrar ter que limpar aquilo tudo, raspa-te!

Sem comentários:

Enviar um comentário