quarta-feira, 22 de abril de 2020

Estaria talvez a plagiar sentimentos se não fosse diferente desta vez. Os modos, os silêncios, a falta de palavras ou de razões. Abstenho-me até de mim mesma para poder fugir. O sol continua a pôr-se cedo e coincide a hora da partida com a hora de chegada, mas partes também quando ele se vai. A mim fica o dever de adivinhar. Já o fiz em tempos, mas não gostava de ter que me plagiar novamente.
Fico a escrever fora das linhas. Não olho para o papel para não temer ter que me apagar. E no fundo, escrevo a lápis para isso mesmo, para poder apagar.
(...)Por um lado sempre quis Inverno, mas um Inverno longe de mim faz doer a alma e a calma. É um querer não quereres e custa a aquecer o corpo. A chuva passa sem chover e os carinhos também. Os pés, frios, não encontram caminhos e o agasalho o ser é tão longínquo quanto o fundo que nos deixamos ser ou esvaziar. Ou tocar.
Por um lado o Outono faz cair as esperanças, e o que vai ficando bem cria-se intenso à desvontade que temos de imaginar propósitos. Hoje escrevo porque já quis ser mais e vim a descobri-lo como um demais às minhas possibilidades.
(...)Há alturas em que não me permito ler, talvez por covardia deixo-me recatada das emoções que costumo encontrar nos enredos alheios, talvez por covardia. Encontrei um livro que deixei a meio há quase perto de um ano, talvez. Em toda a sinopse da história só desejava poder viver naquela época, naqueles lugares, aquelas conquistas e desavenças, amores e desamores... Caramba, sim, é covardia achar que ...o meu coraçãozinho não me permite tolerar certos sonhos, certos carinhos, mesmo que na minha mente em corpos descritos de personagens fictícias, sabendo que, não fosse há um século atrás, podia muito bem ser eu.
O que me realizo neste momento é que preciso realmente disso, de sonhar, de me permitir tal, de viver no corpo e mente fictícia de alguém. Talvez apareça no próximo parágrafo um pouco mais da sonhadora e apaixonada que tanto recalquei.

sexta-feira, 17 de abril de 2020

Como tantos outros, eu escrevo para não ser esquecida. Escrevo também para não me esquecer e para esquecer, de igual forma. Porque isto de escrever não deveria ter regra nem norma, não deveria ser algo pelo qual nos fosse invalidada a vida. Como tantos outros.
Há multidão que desaprende de escrever e mesmo assim comunica, eu, eu só escrevo para não ser esquecida.
Um dia gostaria de saber que o que cheiro, os aromas das minhas memórias, os sentires dos meus sentires, andarão perdidos em prateleiras em livros, já com as páginas amareladas e algumas ainda coladas, ou folhas por rasgar, surpreender como me surpreendem tantos outros. Como tantos outros.
Guardo rascunhos, quem me conhece sabe onde está a caixa, que de tudo o que não tenho, é aquilo que guardo. E outros que andam esquecidos por aí, oferecidos ao acaso nos acasos da inspiração ou como mera demonstração de consideração, mas o seu fim era mesmo que eu não fosse esquecida.
Guardo na caixa aquilo que deixarei para testamento. Tudo o que fui e já não sou, tudo o que sou e não serei, e ainda mais, aquilo porque nunca eu própria me esquecerei.
Quantos não terão já ido para o lixo por parecerem listas de compras ou até para a máquina de lavar roupa... Bem, se no fim entupirem a tubagem, sei que mais uma vez lhe pegaram, mesmo que impossível de ler.
Assim me sinto, quando me esqueço de mim. E confesso que ao me ler, coisa que evito fazer, me recordo, coisas boas, coisas más, coisas que talvez nessa minha hipocondriatite do amor (como referi há uns dias), me levaram ao Inferno e outras que me trouxeram de volta à Terra. Sim, pois nunca estive no Céu.
Como tantos outros, escrevi para viver, escrevi para sonhar, escrevi para destilar e escrevi por odiar. Escrevi por amor, pela falta dele, escrevi pela vida, mas essencialmente, escrevo para não ser esquecida.

quinta-feira, 16 de abril de 2020

Era jovem, e aquele pequeno jardim sempre me fascinou. Era jovem eu, e hoje eram jovens as flores que o tornavam uma pequena selva de magnólias com maracujá e outras tantas plantas que não sei identificar, num aroma a tílias, com um piso de ervas daninhas que, se eu o conseguisse penetrar, me ficaria, de certeza, pelos joelhos. Mas sempre me fascinou. Costuma ser por esta altura do ano que o limpam. É apenas um pequeno jardim, meia dúzia de metros quadrados, num canto um tanque, e do outro lado um banco de baloiço. Uma mesa de plástico é visível do lado de fora do portão, mas não me lembro de alguma vez lá ter visto alguém sentado ou a fazer um lanche.
Apesar de sonhar muito com um espaço assim, compreendo porque não aparece nunca ninguém do lado de dentro do portão... Se eu alguma vez iria gostar de ter um espaço tão lindo e ter que o partilhar com os mirones que vão vagueando no passeio, e espreitam (como eu o faço, só para sonhar), para contarem o número de qualidades de plantas diferentes que cercam os restantes muros? Claro que não!
Um limoeiro de uma casa geminada deixou quebrar um ramo para a escadaria que dá acesso àquela que deveria ser a entrada principal da casa, talvez por isso ninguém saia. A casa é antiga, tem cerca de 3 ou 4 andares e é provavelmente do século XIX ou inícios do século XX. Imagino que, por dentro, se cuidarem tão bem da casa como cuidam do jardim, o estuque esteja a desfazer-se e cada degrau seja uma sentença de morte, mas talvez esteja enganada. De qualquer forma, prefiro pensar assim, pois nem o jardim, nem a casa são meus, e torná-los perfeitos neste meu sonho iria atiçar a inveja, maldita ela seja!
Aquele portão não deve ser aberto há anos. As pessoas que passam na rua têm o vício de deitar o lixo para a valeta que o separa do passeio... Lixo de todo o género, tipo e feitio. Que coisa feia!
É que a luxúria de desejar ter um castelo é daquelas coisas que só passam mesmo com a idade e com os problemas nas costas... só de lembrar ter que limpar aquilo tudo, raspa-te!

quarta-feira, 15 de abril de 2020

Foi para matar o tempo que voltei atrás. A imensidão do suspense ao qual já não tinha alternativa emocionou-me. Peguei na faca que guardei e segurei-a com a força com que um leão agarra a sua presa, para que não fizesse ricochete, matei-o. Matei o tempo. A tempo.
Uma voz que no escuro se diluiu disse, e suponho que tivessem sido para mim essas palavras, "ELE AMANHÃ... ELE AMANHÃ....volta."
Dispersa no estremunhar do acordar, olho para o lado, e lá está ele, o tempo, para me medir os passos com compasso. Afinal foi só um sonho? Estou perdida.
Vi as vísceras do maldito a escorrer borda fora, cinzentas, negras como uma tarde primaveril que agoira temporal. Como é possível ele voltar? E amanhã? Aliás, hoje.

Mas teria que ser, decerto, um sonho. Quantas vezes não recorro ao tempo para lhe pedir mais, para lhe pedir para ficar, para não ir? Porquê esta ânsia de o matar? Esta relação de amor-ódio que nos separa e a aproxima relembra os romances efémeros em que acreditamos que o amor é o amor, e tudo isso se deve ao tempo, que quer ser mais veloz que lento.

Terei que pedir perdão? Terei que cumprir pena? Por, num suposto sonho, ter morto o tempo à facada, numa instância macabra? Quantas vezes me matou ele, o tempo, por esperar, por querer, por fazer, por passar, por amar? Quantas vezes terei morrido eu às mãos do tempo, que nessas alturas se fazia passar lento, lento demais, tal sofrimento.

E se o mundo estivesse a arder, do que serviria o tempo? Quando o mundo arde, ninguém se lembra do tempo. Ele passa. Ninguém o vê, ninguém quer saber do tempo quando o mundo arde, nem a que hora chega, nem a que hora parte, e esta deverá ser a sua vingança... Tal pujança...
E foi para matar o tempo que voltei atrás, o tempo do qual ninguém, mesmo que queira, se desfaz.

domingo, 12 de abril de 2020

Saí da varanda com demasiados passados nos presentes e uma esperança tremenda de os conseguir metaforizar. Alguns entendem-se, outros não, talvez por isso essa vontade de os querer trocar por miúdos. Esta insanidade de pseudo-isolamento que me faz crer que deixou de haver loucura, faz ter saudades até das coisas mais absurdas, incluindo o medo do querer revivê-las sem como para isso.
Debaixo dos sonhos fica o inferno do ter que acordar. E acima, acima dos sonhos, não há nada. Perguntava-me há pouco se ainda sabia o sabor de me sentir pequena num abraço grande e de conforto. E foi outra pergunta sem resposta. Nem vem o sono, nem vem o sonho. Nem o conforto. 
É inusitado estar a escrever na primeira pessoa, visto que não sou a única na caixa dos que sofrem de hipocondríatite do amor. 
Estava frio, fiquei pouco tempo, até porque o que trouxe para dentro ainda mais me arrepiou. Poderá ser das mesmas canções em modo repeat, eu sei lá! De tanto que há a fazer não me cedo a sonhar os sonhos dos outros. Tenho bem mais que fazer! 
Ah, sim, tinha falado sobre metáforas... Já estão escritas e enterradas. E criar metáforas novas? Afinal não falta tempo nesta guerra que ninguém acredita que está perdida. Mas confesso que não gostaria de estar noutro lugar que não este, a matar o desassossego. 
Alguém das vozes me diz para ficar calada e que é por isso que dói cair da nossa própria loucura, essa mesma que já se perdeu, que já foi violada ao ponto de não saber de quem é. 
Bem, vamos lá ver, de que raio estou eu para aqui a falar?! Viver e deixar que violem uma loucura que não é minha?
Cheguei a ter vontade de dançar, a canção era linda, já me bastante conhecida, mas na minha ilucidez não reconheci de quem era a voz. Cheguei a ter vontade de dançar e de me sentir pequenina num abraço grande, sem que haja ficticismos ou outros ismos da parte de quem me controlaria os passos. Sim, ainda hoje cheguei a ter vontade de dançar. 
Agora as vozes dizem-me para fugir, que é tudo o que eu poderia fazer. Decidam-se, porra! 
É, estes últimos dias tenho bafejado palavrões como acho que nunca fiz e peço mil vezes perdão aos meus pais pois eles não me educaram para isto.
E dormir, hum? Vai dormir que o teu mal é sono. Ou se não é, arranja-te. Quando o amanhã chegar talvez seja diferente.