segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

 Esta tarde deparei-me a caminhar com uma vontade de sentir o calor do frio como há muito não subscrevia. Senti saudades. Na Avenida da Liberdade senti uma prisão aos sentires alheios que me entristeceu, que me fez duvidar da pseudo-vaidade que tinha em ser eu.. Não sei razões. Como alguém que deambula sem sonho fui-me rebuscar ao calor dos olhares dos amantes que se escondiam à vista de todos em bancos de jardim, e reluziu dentro de mim a saudade, quais luzes de natal no centro da cidade, senti saudades de mim.

Andei tanto quanto o possível, com medo de descer e não ter pernas para subir, juntei os meus trapos e os meus remendos e endireitei as costas, porque só assim se consegue olhar e ver, reparar na luz, na iluminação. Tudo o resto são sombras. Escreveria o livro da pandemia, o da pandemia e o do pandemónio, mas escasseia-me o tempo e não há cabeça para obras.

Fechei para manutenção antes que algo avarie, porque nestas luzes que o Natal traz, podem falhar uma, duas, que às três falha tudo de vez. 

Até qualquer dia em que me iluda. Em que o sentimento a minha alma desnude. Porque hoje, só hoje, caminhei em cima das minhas sobras, de costas direitas, passo largo e veloz, para não ter que ver, para não ter que reparar, porque tenho inveja desses amantes que não ligam ao pandemónio. 

domingo, 7 de junho de 2020

A razão de não ter razão desde que acordei esta manhã, deixou-me impertinente, e ao contrário do frio que se sente para fazer viés ao calor que já me tocou, não estou em equilíbrio. 
Disseram, como eu já perspetivava, que todos morremos jovens. Essa lengalenga que nos encosta à parede faz dissipar os sonhos que se revoltam contra a espada. Faz-me julgar que, no fim de contas, queria ser jovem, pois acho que já gastei todas as vidas. Não quero revigorar a minha demência em prol da de outrem, cada demência tem a sua ciência. Para quê ter razão, se necessitamos que alguém nos diga que temos. Guarde-se então a razão naquela caixa mais pequena e no lugar mais escondido, porque entre ela e a demência, é a segunda que tem mais ciência. 
Parei para escrever, de escrever, parei. O tempo consome-se e o muro continua feito buraco no chão, fissura de tal profundidade na qual caí. De um lado, espada, do outro, parede. 
Talvez a loucura me fizesse companhia se eu guardasse a razão que não tenho porque ninguém ma dá nessa caixinha de Pandora. Fico pela ciência da demência e mando a razão embora. 

domingo, 24 de maio de 2020

Quando quis permanecer não soube ficar
Quando fiquei, agora, tenho sede de fugir,
Acabei sentada em estilhaços, chorando para não rir,
Esperando, do mar, os seus passos, permite-lhe para me amar.

Acordei, deitada na areia, depois de um sonho macabro,
Renunciei ao silêncio, da palavra me fiz devota,
Parti o relógio com o tempo, porque só o mar vai e volta,
Não sei quem ficou de mim da ida, não sei onde mais acabo.

Testei o tempo, o corpo, no ser procurei guarida,
Quis revolver-me nas ondas, que só sonho, já não olho.
Tentei, juro, tentei, guardar o que foi nessa ida.

Quis escrever uma história inteira, como rosa que não colho,
Uma linda perspetiva de como se fica da fugida.
Do mar que me levou, além da palavra, nada ficou.
Do sonho acordei despida daquilo que o tempo matou.

Antes, eu, que sentia o sim, envolvo-me e visto-me em nãos,
O medo tomou o poder, já não sei ser.
Procuro no meio da areia, como concha, a minha alma,
Mas estou sentada nos escombros, que o medo levou-me a alma!

Fragmentos

Aqueles pedaços que fui deixando de mim, nas paredes, nas janelas,
Por onde passo e olho, se revestem de entradas e saídas.
Ficam os desaparecidos pelas quedas desprendidas,
E as recordações de mim já não encaixam por entre elas.

Fragmentos são grandes e pequenos, de estatura média,
Altos, baixos, fortes, magros, entorpecidos,
Fragmentos que não se encontram, estão já perdidos,
E a linguagem que já não volta tem curta a rédia.

Cacos de louça, de vidro, muitos tantos de cristal, tentei colar,
Para guardar as jóias que me sobram do desapreço,
Vagueei pelas ruas do medo sozinha para os encontrar,

Fui dar com eles soltos, e de esperança em mim padeço,
O querer fica mais fraco na vontade de guardar,
Todos os fragmentos que dentro do coração esqueço.



domingo, 17 de maio de 2020

A uma amiga. Perdoa-me a lucidez. Perdoa-me também o dizê-lo assim.

Poderia estar a falar sobre mim, mas não, vou antes dedicar-lhe a ela estas palavras. Ela, que não se sabe, ela que não é mulher de ninguém e que assim tanto o deseja, chega a confinar os pensamentos a uma prisão que criou em união, achando-o por si belo, mas por não ser de ninguém, cada tijolo desse seu castelo se faz desmoronar. 
Sabes, eu ainda guardo a minha torre dos sonhos, aquela que quem me tem não sabe que existe ou existiu, e que, quem me tem, talvez não compreenda a sua existência. 
Sabes, eles não sabem sonhar. Quando sonham, tornam-no algo tão egoísta e tão efémero que nos fazem parecer que somos as guardadoras dos seus sonhos. Já me disseram 5 anos e bem mais se passaram, que se casariam comigo e me levariam para o palácio escondido nas honduras, lá nos precipícios dos quais passadas semanas me fizeram cair. 
Sabes, eles não são Deuses, nem deuses, eles não nos criaram, foram os nossos pais que nos criaram. E essa capacidade que têm de nos inventar sonhos e de nos fazer crer que os seus são os nossos, é uma mentira tão descabida. Quem é capaz de sonhar somos nós, e sonhamos a cores.
Aquilo que destilas a preto e branco como ódio, nem sequer lhe chega, só te abate a ti. E essa falta de vontade de viver que prescreves a partir da vida que d'Ele vês e te agonia, só te tira a fome. 
Pensa: quem te alimenta és tu, ninguém mais virá para o fazer se tu não o souberes. Tens que te garantir. Tens que rir. Tens que viver. Tens que sonhar. A cores.

sábado, 16 de maio de 2020

Hoje senti-me aquela papoila que cresceu silvestre no meio de arbustos plantados, meia abandonada, reparava nela sempre que passava junto ao muro. Hoje já lá não estava. Ou alguém a levou, por sentir que ali não ficava bem, ou alguém a levou porque achou que lhe daria mais vida, na pouca que pareceria continuar a ter. Parece que não, mas uma papoila oferecida, roubada, desplantada, a adornar no cabelo de uma mulher dá-lhe um ar de graça, à papoila, que é inexplicavelmente bonito. À mulher, depende... nem todas são merecedoras dessa graça. Mas a essa papoila que estava antes tão só, ter sido roubada, suponhamos, para dar cor à tez de uma mulher, dá-lhe sim uma beleza inexplicável. 
Hoje. Hoje de tanto que fiz senti que foi nada. Hoje acho que merecia uma papoila no cabelo, mesmo que não me alterasse a beleza ou a falta dela, dar-me-ia com certeza outra alegria. 
Hoje. Hoje peguei na guitarra e tentei mais uma vez uns acordes. Toda a gente sabe que não sei tocar. Hoje já tentei, com os meus dedos pequeninos que nem violino assombrariam, tocar duas a três cordas de cada vez e ninguém ouviu. Tocar guitarra faz-me destas coisas, principalmente dá-me tanto sono que parece que já me babo para adormecer em cima dela. Tem curvas, talvez específicas para isso, para se poder dormir, já que não se sabe tocar. 
E por falar em tocar, vai-se desaprendendo essa sabedoria que nos é uma dádiva à nascença. Também tenho já medo de cantar, não chego aos tons a que chegava. Ponto final, não sei nada de música.
Hoje, Hoje nem tenho vontade de dançar, estou embalada nesta melodia repetitiva que me sai da guitarra, por mais duas ou três cordas que lhe aprenda a tocar de cada vez. Tristeza. 
É demasiado voraz, demasiado castradora a vontade de ser e querer saber fazer tudo. Como se imaginasse a minha morte amanhã e tivesse uma lista de coisas que quero fazer antes de morrer, ainda a mais de metade por preencher. É que a motivação escorre pelos dedos com a rapidez de um pedaço de gelado a derreter. E gela as mãos da mesma forma, e o gelado, que pinga dos dedos deixa-os colados e incapacitados de fazer mais seja o que for até que se lavem as mãos. Quando se lavam as mãos, vai-se a vontade. E, mais uma vez falando de mim, na perspetiva de que poucos lêem, o meu esquecimento é tão repentino quanto a efemeridade das ideias e das vontades se não lhes pego. No final, aparece tudo nos sonhos, assombrando-me como o violino que nunca aprendi a tocar, assombrando-me como as minhas mãos que, de tão pequenas, parecem nada conseguir agarrar. A questão que me coloco, pois a papoila a esta hora já morreu, é... o que vou sonhar hoje? 

quarta-feira, 22 de abril de 2020

Estaria talvez a plagiar sentimentos se não fosse diferente desta vez. Os modos, os silêncios, a falta de palavras ou de razões. Abstenho-me até de mim mesma para poder fugir. O sol continua a pôr-se cedo e coincide a hora da partida com a hora de chegada, mas partes também quando ele se vai. A mim fica o dever de adivinhar. Já o fiz em tempos, mas não gostava de ter que me plagiar novamente.
Fico a escrever fora das linhas. Não olho para o papel para não temer ter que me apagar. E no fundo, escrevo a lápis para isso mesmo, para poder apagar.
(...)Por um lado sempre quis Inverno, mas um Inverno longe de mim faz doer a alma e a calma. É um querer não quereres e custa a aquecer o corpo. A chuva passa sem chover e os carinhos também. Os pés, frios, não encontram caminhos e o agasalho o ser é tão longínquo quanto o fundo que nos deixamos ser ou esvaziar. Ou tocar.
Por um lado o Outono faz cair as esperanças, e o que vai ficando bem cria-se intenso à desvontade que temos de imaginar propósitos. Hoje escrevo porque já quis ser mais e vim a descobri-lo como um demais às minhas possibilidades.
(...)Há alturas em que não me permito ler, talvez por covardia deixo-me recatada das emoções que costumo encontrar nos enredos alheios, talvez por covardia. Encontrei um livro que deixei a meio há quase perto de um ano, talvez. Em toda a sinopse da história só desejava poder viver naquela época, naqueles lugares, aquelas conquistas e desavenças, amores e desamores... Caramba, sim, é covardia achar que ...o meu coraçãozinho não me permite tolerar certos sonhos, certos carinhos, mesmo que na minha mente em corpos descritos de personagens fictícias, sabendo que, não fosse há um século atrás, podia muito bem ser eu.
O que me realizo neste momento é que preciso realmente disso, de sonhar, de me permitir tal, de viver no corpo e mente fictícia de alguém. Talvez apareça no próximo parágrafo um pouco mais da sonhadora e apaixonada que tanto recalquei.