sábado, 16 de maio de 2020

Hoje senti-me aquela papoila que cresceu silvestre no meio de arbustos plantados, meia abandonada, reparava nela sempre que passava junto ao muro. Hoje já lá não estava. Ou alguém a levou, por sentir que ali não ficava bem, ou alguém a levou porque achou que lhe daria mais vida, na pouca que pareceria continuar a ter. Parece que não, mas uma papoila oferecida, roubada, desplantada, a adornar no cabelo de uma mulher dá-lhe um ar de graça, à papoila, que é inexplicavelmente bonito. À mulher, depende... nem todas são merecedoras dessa graça. Mas a essa papoila que estava antes tão só, ter sido roubada, suponhamos, para dar cor à tez de uma mulher, dá-lhe sim uma beleza inexplicável. 
Hoje. Hoje de tanto que fiz senti que foi nada. Hoje acho que merecia uma papoila no cabelo, mesmo que não me alterasse a beleza ou a falta dela, dar-me-ia com certeza outra alegria. 
Hoje. Hoje peguei na guitarra e tentei mais uma vez uns acordes. Toda a gente sabe que não sei tocar. Hoje já tentei, com os meus dedos pequeninos que nem violino assombrariam, tocar duas a três cordas de cada vez e ninguém ouviu. Tocar guitarra faz-me destas coisas, principalmente dá-me tanto sono que parece que já me babo para adormecer em cima dela. Tem curvas, talvez específicas para isso, para se poder dormir, já que não se sabe tocar. 
E por falar em tocar, vai-se desaprendendo essa sabedoria que nos é uma dádiva à nascença. Também tenho já medo de cantar, não chego aos tons a que chegava. Ponto final, não sei nada de música.
Hoje, Hoje nem tenho vontade de dançar, estou embalada nesta melodia repetitiva que me sai da guitarra, por mais duas ou três cordas que lhe aprenda a tocar de cada vez. Tristeza. 
É demasiado voraz, demasiado castradora a vontade de ser e querer saber fazer tudo. Como se imaginasse a minha morte amanhã e tivesse uma lista de coisas que quero fazer antes de morrer, ainda a mais de metade por preencher. É que a motivação escorre pelos dedos com a rapidez de um pedaço de gelado a derreter. E gela as mãos da mesma forma, e o gelado, que pinga dos dedos deixa-os colados e incapacitados de fazer mais seja o que for até que se lavem as mãos. Quando se lavam as mãos, vai-se a vontade. E, mais uma vez falando de mim, na perspetiva de que poucos lêem, o meu esquecimento é tão repentino quanto a efemeridade das ideias e das vontades se não lhes pego. No final, aparece tudo nos sonhos, assombrando-me como o violino que nunca aprendi a tocar, assombrando-me como as minhas mãos que, de tão pequenas, parecem nada conseguir agarrar. A questão que me coloco, pois a papoila a esta hora já morreu, é... o que vou sonhar hoje? 

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