quinta-feira, 21 de abril de 2022

Hoje deitei-me nas trincheiras, escondida de duas ou três guerras.
Fiz a cama em insónias acumuladas com a falta de momentos.
Aprendi que as palavras não se usam como noutros tempos,
E preparei o posto de vigia entre as serras.

Talvez não devesse escrever sobre conflitos
Hoje deitam-se eles impotentes mal entendidos,
Aqueles que se perderam, estão perdidos
Não foi vento na memória, não foram choros nem gritos.

Dormirei em buracos na terra,
Cada um ou cada qual com sua guerra
Intermitentes sonhos me dirão,

Se cada qual tem paz na sua história,
Re-nego que foi vento na memória,
Entre as trincheiras sonharei ou não.

Ana Rodrigues

21.4.2022

quarta-feira, 13 de abril de 2022

Dizem que não custa andar à chuva
Que só se molha quem quer
Dizem também que toda a vida é luta
Doa a quem doer.

Dizem que chorar faz bem, 
Que alivia a alma
Dormir em paz, também,
Traz-nos mais calma.

Quem sabe não diz,
Talvez seja, assim, mais feliz.
Quem sente não chora,
Às vezes. 
Dizem que a dor demora mais a chegar,
Talvez se seja assim mais feliz.

Dizem que quem dá nada tem a pedir,
Dar é dar, não é troca.
Dizem que quem pede sem precisar,
Não tem mãos a medir,
Não tem onde guardar. 

Aquilo que dizem a mim, pouco me importa
Nada me faz acontecer.
Contar contos dos outros são só aqueles da família
E até esses já tendo a esquecer.

Cubro-me dos pés à nuca,
Mesmo sem estar nua
E às vezes faz cá dentro mais frio
Que o que faz na rua.

Dormir em paz é o barulho de muitos
O silêncio de alguns
E a loucura de outros tantos que se somam.
Encostada ao meu peito, 
Espero sonhar quando adormecer.
Faz-me chegar e partir,
Faz-me partir e voltar,
E sem sair do lugar,
Ajuda-me a viver.

Aquilo que dizem a mim já pouco importa
Daqui a nada ou acordo, ou não
Sonhar acordada faz-me sentir morta,
E dormir sem paz, solidão. 







domingo, 3 de abril de 2022

 Dias que se passam sem ideia do que será capaz de nos tranquilizar. Domingos atentos aos mais variados sons porque o dia de trabalho é em casa ou porque simplesmente na má fé de se manifestarem presentes, fazem barulho. Domingos, dias de trabalho. Lavar, aspirar, varrer, estender roupa nos esticadores enferrujados que chiam como um bicho qualquer sofredor. 

Há também os domingos que são dias de passeio, de missa, de cruzar o faz de conta nos cumprimentos maliciosos que se dão a pessoas que já lhes foram próximas, ou que de alguma forma, lhes causam inveja. São domingos de passear a vestimenta mais bonita juntamente com os sorrisos mais falsos. 

Não é bom julgar a dor dos outros, ainda pior é achar e bater o pé dizendo que as próprias dores são sempre as piores. 

Há domingos em que os cães uivam. E esses domingos duram quase a semana toda. Os domingos de descanso também existem, mas os aspiradores e os sofás a arrastar entre outras coisas que tais fazem valer o trabalho de quem não faz mais nada da vida senão trabalhar ao domingo para depois se pavonearem no café a gabar-se do trabalho que tiveram. Se calhar até foi bastante, mas de sagrado nada tem a não ser que ofereçam a Deus os sacrifícios e que peçam perdão pela coscuvilhice alheia do resto da semana. Com os aspiradores e as máquinas e as vassouras e afins não sei se Deus conseguirá ouvir, mas que Deus os perdoe.

Peguei na guitarra para não ouvir os uivos dilacerantes dos cães, que a 3 ou quatro blocos de casas auferem uma dor superior à dos que trabalham, seja ao domingo, seja nos outros dias da semana. Respeito-os. Tomara que o respeito fosse mútuo. 

Pois peguei na guitarra porque não sabia já o que fazer para me libertar da quantidade de trabalho que trago para casa ao fim de semana. Não sabia se haveria de escrever, de cantar, de gritar ou de uivar como os coitados dos cães que se sentem abandonados (só não queria ouvi-los, sentem-se as dores mais profundas ao partilhar deles a mesma solidão). Mas assim foi, peguei na guitarra e comecei a uivar. Ao fundo as máquinas pararam, os aspiradores desligaram-se, os esticadores dos estendais da roupa deixaram de se ouvir e pareceu-me, de perto, ter ouvido um "Chiiiiuuu". Dois "Chiiiiu". Carreguei mais nas cordas para tentar ouvir o terceiro. Não houve terceiro. 

Arrumei a guitarra. Meia hora da modinha do "caga-cão" a imitar os uivos dos cães da vizinhança surtiu o efeito que à partida eu pretendia.

Mas de muito perto do lado de onde vieram os "Chiiiiuuu", continuam as máquinas, os móveis e os aspiradores. 

Desisti. Mais logo volto a uivar. 

quinta-feira, 31 de março de 2022

Foram já bastantes as situações em que, de um monte oriundo de silêncios e conversas com os comigos de mim, nada surge. Dizer que a velhice incorporada na quarta década de idade nos confunde ou nos substrai parece mal visto por aqueles que nos rodeiam. No entanto, ainda ficamos pior vistos perante quem somos ou quem julgamos que já fomos. 

Escrevo agora para me desculpar e tentar redimir aos comigos de mim que me acompanham no quotidiano mas que não têm de mim a devida atenção. Sinto-lhes falta, mas não me resta senão aumentar a espessura da redoma que nos separa. 

Talvez seja assim a vida ou a morte aos poucos. Limitadas ao morrer um pouco para viver o que tiramos à vida. Concentrar-me, então,um desgosto quase impaciente contra o qual nós obrigam a ser resilientes porque tu és só um e mais ninguém, "escolhe quem queres ser, escolhe que história queres escrever de ti, tens que escolher. Pois nunca terás a tua própria biblioteca ou quem ta leia". 

Estou guardada numa coluna, mas não me encontro lá. Um porto de abrigo onde me aqueço, quando há tempo. Mas nunca há tempo. 

Há também os que dizem "não vás por aí", mas não sabem nem julgam que talvez já conheçamos demasiados caminhos que já só "tanto faz, já sei onde vai dar". 

Sinto falta de uma viagem de comboio sem pressas, de um destino sem esperas, de um ir sem ter quando voltar. Sinto falta de um querer mais que um bem querer apesar de não ter nada para dar. 

E, em simultâneo, dá vontade de parar, de esquecer, de esquecer que se deve o que não se deve, e de lembrar que só devemos dar o que há e nada mais. 

Procuras a solidão na tua companhia, mas não sais porque já não conheces quem te acompanha, e por isso reconheces que o melhor é ficar no calor dos lençóis que, ao menos, mesmo que demorado, vão retribuindo alguma coisa ao corpo trémulo que só desejavas ver incandescente. Tu e os teus contigos de ti. 

Eu fico aqui, com os desconhecidos, a tecer desrealidades virtuosas motivadas por outras realidades que talvez sejam as mais verdadeiras. 

Eu e os comigos de mim.



quinta-feira, 29 de julho de 2021

Sei-me inteira, mulher de corpo e mente, mente que sonha e corpo que desmente, mas assim me faço. E tantas outras. Sei-me de calor e de frio se for o caso, e em qualquer acaso de febre deliro. Nos meus sonhos o suspeitei, nos pesadelos, então, nem mais digo, presa entre um consciente de saber quem sou ou o que sou e um inconsciente que o desmente.
Sei-me inteira e insegura, de esqueleto raso, completa, sei-me mulher, excêntrica, indiscreta, discretamente me desafio a ser. A ser-me.
Sei-me crónica numa mesa de pastelaria onde não vou, textos guardados e perdidos, por um café que se derrubou, há anos.
Sei-me poema de leitura difícil, de impossível interpretação, não sei ser lida com o peito, quanto mais com a razão.
Sei-me prosa esquecida, sem pontuação. Sei o que não sei de mim, só não sei o momento de o procurar, ou onde, porque de resto sei-me tudo.
E de tudo o que resta de mim, ainda não sei mais nada. Não sei se sou noite, manhã, tarde ou madrugada, revelo-me com o sol crepuscular ou com as noites sem lua. E não tenho medo de, perante mim, posar nua. Porque no espelho nada mais vejo que o espaço que ainda tenho para me saber mais. 

segunda-feira, 12 de julho de 2021

 Ai.... A liberdade. Palavra proibida nos tempos que correm. Somos livres quando somos crianças, e levamos o balde e a pá para construir o castelo dos nossos sonhos. Com areia da praia, é certo, mas aí sim, somos engenheiros dos nossos próprios desmoronamentos. Deitamos abaixo para construir mais. Ai. Essa, essa liberdade. Não sabia quando, mas ia. Levavam-me. E na areia da praia fazia a minha cidade. Na minha liberdade.

Não sabia quando, mas ia. Levaram-me e lá fiquei. A fazer castelos na areia. Engenheira da minha própria torre. E a liberdade vai com as ondas na maré vaza. Fica a vontade de ser pequena e não ter vergonha de ir buscar areia no meu balde. Mesmo que houvesse medo de ir buscar água para molhar a areia que entretanto secava.

É. Sou grande demais. Fica a saudade. Os baldes são maiores, não trazem nem levam só areia. Será assim tão imoral, serei assim tão anormal ao ponto de não conseguir querer mais recordações? Ser pequena era tão bom. Engenheira das minhas construções. Tenho medo de ser grande. O balde pesa. Guardo neles sonhos. Sem grandes castelos, já. Vontade, só de os enterrar na areia para mantê-los. Depois, nem vê-los... 

sexta-feira, 2 de julho de 2021

 Vim de viagem, daquelas onde não se pára senão no destino, e trouxe comigo as bagagens todas. Trouxe comigo as que pesam e as mais leves, e também aquelas que não se vêem. Conduzi-me desde a partida a tirar as medidas às nuvens, a fazer desenhos, talvez a querer que lá fiquem para quando tiver que voltar, seja lá isso quando for, mesmo que seja já amanhã. Valeu-me que a bagagem que não se vê não ocupa espaço no carro. Ocupa noutros lugares.

No caminho escrevi coisas, talvez histórias a remendar as memórias, vim de coração cheio e corpo aberto e sedenta de guardar um pouco desses para mim mesma. Talvez um abraço.

Cheguei, mas as nuvens eram diferentes. Desenhavam-se perfis azuis no horizonte, por baixo de umas nuvens leves que lembravam mantas, e choveu. No fundo, sobrevivi, não deu grande tempo para mais.

Ser-me-á pedir-me muito desejar honestidade de mim para mim, pergunto...

É que as noites já começam a encurtar devagarinho e eu pouco sinto a luz do dia, na minha própria honestidade por vezes sinto que me minto.

São apenas coisas com que me conforto, as palavras: pequenas almofadas que afagam angústias. 

Como dizia alguém que já não conheço: "assim morre o desassossego no lugar onde a esperança já foi medo".