quinta-feira, 29 de julho de 2021
segunda-feira, 12 de julho de 2021
Ai.... A liberdade. Palavra proibida nos tempos que correm. Somos livres quando somos crianças, e levamos o balde e a pá para construir o castelo dos nossos sonhos. Com areia da praia, é certo, mas aí sim, somos engenheiros dos nossos próprios desmoronamentos. Deitamos abaixo para construir mais. Ai. Essa, essa liberdade. Não sabia quando, mas ia. Levavam-me. E na areia da praia fazia a minha cidade. Na minha liberdade.
Não sabia quando, mas ia. Levaram-me e lá fiquei. A fazer castelos na areia. Engenheira da minha própria torre. E a liberdade vai com as ondas na maré vaza. Fica a vontade de ser pequena e não ter vergonha de ir buscar areia no meu balde. Mesmo que houvesse medo de ir buscar água para molhar a areia que entretanto secava.
É. Sou grande demais. Fica a saudade. Os baldes são maiores, não trazem nem levam só areia. Será assim tão imoral, serei assim tão anormal ao ponto de não conseguir querer mais recordações? Ser pequena era tão bom. Engenheira das minhas construções. Tenho medo de ser grande. O balde pesa. Guardo neles sonhos. Sem grandes castelos, já. Vontade, só de os enterrar na areia para mantê-los. Depois, nem vê-los...
sexta-feira, 2 de julho de 2021
Vim de viagem, daquelas onde não se pára senão no destino, e trouxe comigo as bagagens todas. Trouxe comigo as que pesam e as mais leves, e também aquelas que não se vêem. Conduzi-me desde a partida a tirar as medidas às nuvens, a fazer desenhos, talvez a querer que lá fiquem para quando tiver que voltar, seja lá isso quando for, mesmo que seja já amanhã. Valeu-me que a bagagem que não se vê não ocupa espaço no carro. Ocupa noutros lugares.
No caminho escrevi coisas, talvez histórias a remendar as memórias, vim de coração cheio e corpo aberto e sedenta de guardar um pouco desses para mim mesma. Talvez um abraço.
Cheguei, mas as nuvens eram diferentes. Desenhavam-se perfis azuis no horizonte, por baixo de umas nuvens leves que lembravam mantas, e choveu. No fundo, sobrevivi, não deu grande tempo para mais.
Ser-me-á pedir-me muito desejar honestidade de mim para mim, pergunto...
É que as noites já começam a encurtar devagarinho e eu pouco sinto a luz do dia, na minha própria honestidade por vezes sinto que me minto.
São apenas coisas com que me conforto, as palavras: pequenas almofadas que afagam angústias.
Como dizia alguém que já não conheço: "assim morre o desassossego no lugar onde a esperança já foi medo".
quinta-feira, 3 de junho de 2021
No caminho para todas as praias que conheço em Portugal, ou pelo menos daquelas de que melhor me recordo, há sempre aquela casa pintada de cor de rosa no exterior. Lembro-me de, em criança, associar a casa cor de rosa ao "estamos a chegar". O momento da chegada embebia-se num aroma a maresia e a salitre, num cheiro que se prendeu na minha memória como a naftalina, mas melhor, num sentido melhor. Mas a casa cor de rosa. Os canaviais à beira da estrada e as suculentas que crescem na areia eram, para mim, o sinal de que o mar já estava perto. Hoje não reparei nesses pormenores que tanto me deixavam ansiosa na infância, hoje fui eu que levei o carro e não havia pressas. Estava sozinha, por isso também não houve grandes sorrisos. Ficou só o mar.
À medida que cresci, o mar foi perdendo ou ganhando créditos, as marés mudaram, e há mais praias.
Hoje talvez sonhe mais com o cheiro do regresso a casa depois das férias, ver as persianas corridas e a casa limpa e pronta para me receber. (...)
sábado, 8 de maio de 2021
Sentámo-nos em pedras onde crescem aquelas flores pequeninas que lhes dão um tom rosa digno dos contos de fada. Não sabemos nem tão cedo saberemos o seu nome. Quando crescemos, redescobre-se o que é a amizade, e que é algo muito maior que as palavras com que a descrevemos aos mais pequeninos. No fim de contas, a amizade é o que vêem e recebem de nós. Às vezes é estarmos calados quando queremos falar e falar quando devíamos estar calados, mas sem imposições. Às vezes é sentarmo-nos naquelas pedras onde crescem as flores pequeninas que parecem cor de rosa mas que são afinal brancas, e imaginar que são azuis como o céu de onde se desvenda a sombra que é criada pelas nuvens nos socalcos. E às vezes a amizade é só isso, sem mais nada: uma palavra que, sem ser dita, se compreende, um abraço que sem se poder dar, se sente.
terça-feira, 2 de fevereiro de 2021
Querem os restos da chuva que continua a cair que eu me desfaça em peças, qual puzzle.. Quer a Senhora das Candeias que o Verão chegue depressa e também eu. Mas, no entanto chove, e o vento tão forte parece que leva Outono, Inverno, e tudo quanto é estação.
Eu, de momento, encontro-me estacionada e revisto-me de mantas, cada qual com a sua história. Uso-as para me cobrir do frio e para me proteger da memória. Uso-as para tapar a cabeça e para me refugiar dos fantasmas e ainda assim, afago-os. São amigos, requerem conforto.
É que nesta assíncrona do vento que sopra de sul com a chuva que cai de norte, a roupa não seca e a mente peca. Fico-me à espera do sonho entre o sono e de o conseguir recordar acordada. É que hoje temos tanto medo desses fantasmas como da vida que desaba, da peste. E sorrimos quando, do horizonte a resposta chega a cores: aquele perfume a tílias em que prendemos amores, e sonhos.
No fim, tudo o que passa disso são transtornos. Tornemo-os risonhos, não medonhos. Tornemo-os conquistas imprevistas. Sejamos quem somos, cada um por si, mas menos egoístas.
segunda-feira, 4 de janeiro de 2021
Esta tarde deparei-me a caminhar com uma vontade de sentir o calor do frio como há muito não subscrevia. Senti saudades. Na Avenida da Liberdade senti uma prisão aos sentires alheios que me entristeceu, que me fez duvidar da pseudo-vaidade que tinha em ser eu.. Não sei razões. Como alguém que deambula sem sonho fui-me rebuscar ao calor dos olhares dos amantes que se escondiam à vista de todos em bancos de jardim, e reluziu dentro de mim a saudade, quais luzes de natal no centro da cidade, senti saudades de mim.
Andei tanto quanto o possível, com medo de descer e não ter pernas para subir, juntei os meus trapos e os meus remendos e endireitei as costas, porque só assim se consegue olhar e ver, reparar na luz, na iluminação. Tudo o resto são sombras. Escreveria o livro da pandemia, o da pandemia e o do pandemónio, mas escasseia-me o tempo e não há cabeça para obras.
Fechei para manutenção antes que algo avarie, porque nestas luzes que o Natal traz, podem falhar uma, duas, que às três falha tudo de vez.
Até qualquer dia em que me iluda. Em que o sentimento a minha alma desnude. Porque hoje, só hoje, caminhei em cima das minhas sobras, de costas direitas, passo largo e veloz, para não ter que ver, para não ter que reparar, porque tenho inveja desses amantes que não ligam ao pandemónio.