quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Não me vou deixar de encantos nesta epidemia de cidade. Foram poucas, mas violentas as inconstantes defesas de ti, e não vou escrever de amor.
Pela janela me lavo das promessas na chuva que corre e os passos que deixo no caminho são como poças de água onde cultivo os meus levantes. Pergunto-me se vou para longe ou não, e talvez não te leve comigo. As pequenas palavras pouco me dizem respeito e eu queria tanto ser mais, mais do que isso, mais do que apenas isso.
Não se cheiram as tílias, não me conformo sobre os aromas que esta chuva apaga, não me informo sobre o que são e estou sinceramente cansada de dizer não: só quero ser mais.
Se me deixar de encantos nesta epidemia de cidade talvez cresça, mas é preciso que tal mexa com a responsabilidade, é preciso que tal mexa com os meus encantos.
A cidade não dorme, ninguém dorme na cidade. E as ruas, essas, nuas, no seu frio se resultam. São poucas as possibilidades de fuga, mas talvez assim o faça, talvez assim me faça. No querer ser mais. No querer ser mais cada pessoa se suscita, se submete, se precede ao futuro inconsciente, inconsciente do que se tem e do que se faz falta.
A aurora estrebucha o rigor dos ossos, e sem vontade cada um sai à rua pela simples obrigação de se sentir vivo. Quero fugir. Vou fugir.

sábado, 11 de outubro de 2014

Podia dizer que o mundo se vira ao meu passo. Lentamente, quanto o diferente que eu posso ser. Mas as palavras não dizem o que eu sou ou o que eu dou, e lentamente o mundo se mente.
Se ao voraz que o vento se faz são colhidas sementes do que se constrói, é o moinho que mói tão capaz de me dizer mais que aquilo que o que alguma gente sente.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014


Imagino-me presente num quarto onde se fazem audições sobre quem cai melhor de pés assentes na Terra. E que poderei fazer eu, se mal sou capaz de tirar os pés da Lua. Como escrava da minha própria saudade sou capaz de escrever passos para trás no intento de desfazer outras aventuras. O que me tortura é hoje a semente do que irá ficar para me impedir de conseguir sentir aromas, de conseguir sentir amores. Se a própria relatividade me puxa a favor de um horizonte, estremeço feita sismo que se desloca pelas ondas de um oceano, mas não há oceanos na Lua que piso, na lua que me fez tua, que me fez sua, que me fez minha, talvez, entretanto. Penso que não, não há oceanos na Lua.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Peço um fundo negro às minhas palavras além dos segundos que perdi ao pedir-te um tempo. Embalo-me num sossego fictício de esporádicas mensagens que me agitam. Pergunto-te se sonhas sobre mim porque o impossível fica nos sonhos que tiveste comigo, se os tiveste. Ainda neste fundo negro aquitecto-me entre incapacidades de te fazer sofrer, como tanto queria, fazer-te sofrer. Essa barreira de onde te atiras para caíres é baixa demais para morreres, e se do pedestal onde tu e só tu te assistes te deixasses seria o mais frívolo acidente a que te sujeitarias. Sujeita-te.
Peço um fundo negro e um pano incolor para taparem as inconsequências de que foges, nem sequer te sabes fugir. Sujeita-te, então. Pequenos passos são grandes quedas e tropeças-te constantemente como se não houvesse amanhã. E para ti não há amanhã. E o sabes. Pelas escadas abaixo cai-te o orgulho que já te foi seguro um dia, esquartejado em pedaços que vais apanhando no caminho de volta para o lugar de onde vieste, abaixo de um certo Inferno onde te odeio, eu e tantos outros 'tus' que me fazem não querer saber mais da simpatia ou do pecado.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Acordámos deitados do mesmo lado da cama, em confortos diferentes. E desta vez ficou algo, mas o tempo corta-nos a fasquia, temos que fugir. Ao invés de um beijo ou daquele "amo-te" que ambos escondemos entre medos e desconquistas infelizes, nem tempo resta para nos consolidarmos. Bom dia, temos que ir. E o "amo-te" que antes nos foi roubado violentamente fica mais uma vez guardado para a próxima vez, ou a vez a seguir à próxima. Talvez seja melhor assim se o sentimos realmente. Não me recordo da última vez que me despedi dos teus sorrisos, recordo-me do primeiro beijo embriagado, confuso entre as vontades e os segredos.
Aceleras-me o passo e pedes-me para ficar, só mais um pouco, entre o clandestino e o rebelde do que foi surgindo em nós. Ficamos aventureiros a descansar mais um pouco, só porque temos quem nos controle o tempo. Antes assim, controlados pelo presente. O passado que nos construiu é hoje tão rebelde como nós o somos, e o futuro não nos pode prender. De planos, quero apenas este lugar plano onde repouso contigo, onde me castigo apaixonada sem o assumir, onde permanecemos vadios e fúteis, egoístas encerrados, neste lugar plano que nem sequer é nosso ou de cada um.
Não me perguntes quem sou, sabes até melhor que eu talvez e ainda assim pensas que me amas. Eu sou distraída demais para saber quem és, mas sei como és e como me tens, e tudo isso segura-me e inoportunamente faz amor comigo mesmo quando não estás. Não estás do meu lado nesta cama, mas acordámos deitados do mesmo lado da cama, em confortos diferentes.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Sou dona das minhas cicatrizes. Até daquelas que nunca te mostrei. Tenho uma por baixo do meu braço esquerdo e outra quase sarada perto do coração. Sou dona das minhas incertezas e de outras tantas que não me dizem respeito, que junto das suas contrariedades fazem borbulhar carinhos inconstantes que apagam a lua.
Falta-me o vício da escrita como oração que costumo usar para adormecer. É que não arranjo já inspiração como antes, expiração, e não me apetece falar de cansaço ou de sorrisos, não me apetece falar de pele tocada ou amores.
Quando a luz do Sol aparecer pela manhã, não lhe vou dizer que não, mesmo que não haja oração que me convide a ser feliz. Gravemente estico as tuas influências para impercepções sobre um mundo que não conheço e do qual me faço indeferida, e se por acaso fechares os teus olhos demais, não te lembres de mim, que as minhas cicatrizes impedem-te de me ver com claridade. Esse teu mundo é muito jovem para achares que o tens de verdade, portanto, não feches esses teus olhos até à cegueira, que o teres-me inteira é plena utopia carregada de infortúnios: os teus e os meus.
Devagarinho os bebo, aos meus segredos que insistem em ser maiores e nem eu os sei. Procuro saber por onde vou sem me render ou sem me vender aos teus caminhos que são cada vez mais longos.
Chego a casa já sem palavras, e convenço-me incessantemente que de nada me serve gastá-las. É como o tempo, ora chuva, ora frio, calor ou estrelas, mas a lua, mesmo apagada, está sempre lá. Estás sempre lá.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Aqui deserto, na culpa de querer sentir, na capacidade de dormir no relento de mim mesma, à espera. À espera, aqui deserto, nesta saudade-raiva de querer mais do menos e de me deixar ter menos que mais, que o mais desta raiva-saudade. E a madrugada oculta-me o sangue, faz-me espremer mentiras que me seduzem a mente, que me acorrentam com a negra vontade de o ter mais perto. De me ter mais perto.
E as luzes nos candeeiros servem para criar sombras, diferentes a cada um dos meus passos, ora pela esquerda, ora pela direita, na estática solidão de não saber o caminho.
Aqui deserto, sob a culpa de não querer sentir, e o medo de me ter, de me ter mais perto. Tatuo aromas na minha pele para me saber viva, que seja apenas na pele, e eu odeio quando fica parado a degustar essa minha solidão, o tempo. E eu odeio esse sorriso que ele me faz por me achar jovem, quando a cada dia encontro mais rugas escondidas pelos aromas na minha pele. Fico deserta.