Acordámos deitados do mesmo lado da cama, em confortos diferentes. E desta vez ficou algo, mas o tempo corta-nos a fasquia, temos que fugir. Ao invés de um beijo ou daquele "amo-te" que ambos escondemos entre medos e desconquistas infelizes, nem tempo resta para nos consolidarmos. Bom dia, temos que ir. E o "amo-te" que antes nos foi roubado violentamente fica mais uma vez guardado para a próxima vez, ou a vez a seguir à próxima. Talvez seja melhor assim se o sentimos realmente. Não me recordo da última vez que me despedi dos teus sorrisos, recordo-me do primeiro beijo embriagado, confuso entre as vontades e os segredos.
Aceleras-me o passo e pedes-me para ficar, só mais um pouco, entre o clandestino e o rebelde do que foi surgindo em nós. Ficamos aventureiros a descansar mais um pouco, só porque temos quem nos controle o tempo. Antes assim, controlados pelo presente. O passado que nos construiu é hoje tão rebelde como nós o somos, e o futuro não nos pode prender. De planos, quero apenas este lugar plano onde repouso contigo, onde me castigo apaixonada sem o assumir, onde permanecemos vadios e fúteis, egoístas encerrados, neste lugar plano que nem sequer é nosso ou de cada um.
Não me perguntes quem sou, sabes até melhor que eu talvez e ainda assim pensas que me amas. Eu sou distraída demais para saber quem és, mas sei como és e como me tens, e tudo isso segura-me e inoportunamente faz amor comigo mesmo quando não estás. Não estás do meu lado nesta cama, mas acordámos deitados do mesmo lado da cama, em confortos diferentes.
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