quinta-feira, 29 de julho de 2021

Sei-me inteira, mulher de corpo e mente, mente que sonha e corpo que desmente, mas assim me faço. E tantas outras. Sei-me de calor e de frio se for o caso, e em qualquer acaso de febre deliro. Nos meus sonhos o suspeitei, nos pesadelos, então, nem mais digo, presa entre um consciente de saber quem sou ou o que sou e um inconsciente que o desmente.
Sei-me inteira e insegura, de esqueleto raso, completa, sei-me mulher, excêntrica, indiscreta, discretamente me desafio a ser. A ser-me.
Sei-me crónica numa mesa de pastelaria onde não vou, textos guardados e perdidos, por um café que se derrubou, há anos.
Sei-me poema de leitura difícil, de impossível interpretação, não sei ser lida com o peito, quanto mais com a razão.
Sei-me prosa esquecida, sem pontuação. Sei o que não sei de mim, só não sei o momento de o procurar, ou onde, porque de resto sei-me tudo.
E de tudo o que resta de mim, ainda não sei mais nada. Não sei se sou noite, manhã, tarde ou madrugada, revelo-me com o sol crepuscular ou com as noites sem lua. E não tenho medo de, perante mim, posar nua. Porque no espelho nada mais vejo que o espaço que ainda tenho para me saber mais. 

segunda-feira, 12 de julho de 2021

 Ai.... A liberdade. Palavra proibida nos tempos que correm. Somos livres quando somos crianças, e levamos o balde e a pá para construir o castelo dos nossos sonhos. Com areia da praia, é certo, mas aí sim, somos engenheiros dos nossos próprios desmoronamentos. Deitamos abaixo para construir mais. Ai. Essa, essa liberdade. Não sabia quando, mas ia. Levavam-me. E na areia da praia fazia a minha cidade. Na minha liberdade.

Não sabia quando, mas ia. Levaram-me e lá fiquei. A fazer castelos na areia. Engenheira da minha própria torre. E a liberdade vai com as ondas na maré vaza. Fica a vontade de ser pequena e não ter vergonha de ir buscar areia no meu balde. Mesmo que houvesse medo de ir buscar água para molhar a areia que entretanto secava.

É. Sou grande demais. Fica a saudade. Os baldes são maiores, não trazem nem levam só areia. Será assim tão imoral, serei assim tão anormal ao ponto de não conseguir querer mais recordações? Ser pequena era tão bom. Engenheira das minhas construções. Tenho medo de ser grande. O balde pesa. Guardo neles sonhos. Sem grandes castelos, já. Vontade, só de os enterrar na areia para mantê-los. Depois, nem vê-los... 

sexta-feira, 2 de julho de 2021

 Vim de viagem, daquelas onde não se pára senão no destino, e trouxe comigo as bagagens todas. Trouxe comigo as que pesam e as mais leves, e também aquelas que não se vêem. Conduzi-me desde a partida a tirar as medidas às nuvens, a fazer desenhos, talvez a querer que lá fiquem para quando tiver que voltar, seja lá isso quando for, mesmo que seja já amanhã. Valeu-me que a bagagem que não se vê não ocupa espaço no carro. Ocupa noutros lugares.

No caminho escrevi coisas, talvez histórias a remendar as memórias, vim de coração cheio e corpo aberto e sedenta de guardar um pouco desses para mim mesma. Talvez um abraço.

Cheguei, mas as nuvens eram diferentes. Desenhavam-se perfis azuis no horizonte, por baixo de umas nuvens leves que lembravam mantas, e choveu. No fundo, sobrevivi, não deu grande tempo para mais.

Ser-me-á pedir-me muito desejar honestidade de mim para mim, pergunto...

É que as noites já começam a encurtar devagarinho e eu pouco sinto a luz do dia, na minha própria honestidade por vezes sinto que me minto.

São apenas coisas com que me conforto, as palavras: pequenas almofadas que afagam angústias. 

Como dizia alguém que já não conheço: "assim morre o desassossego no lugar onde a esperança já foi medo".