Sentei-me no chão da varanda para pedir as estrelas, e o céu se abriu. Impaciência aquela de não saber já lê-las, impaciente ser que o céu doce me tornou. Impaciente. E assim foi. As nuvens se soltaram da prisão de Deus para me receber, e me senti obrigada a entregar-me. Do pouco que tinha restavam reles carências, afogadas no infortúnio de não ser mais eu, impaciente. Saudades de quando a Lua me tornava vulnerável, de quando o vento me fazia frio, saudades de quando os odores me faziam atingível, tangível aos desígnios de Deus, que me guardara. E hoje protesto, pedindo às estrelas que não me deixem adormecer no entretanto de não saber lê-las, que me deixem lida e eu saberei dormir.
Voltei para dentro, não pelo frio, voltei-me para dentro, e nada. O vento tapou as estrelas, que apesar de longe sabe retê-las, e a Lua já nem sabe sequer o meu nome. Preencheram-se ou não os vagos caminhos, que na luz intensa não soube seguir. Fiz-me velha represa de sentimentos e hoje ninguém me faz rir, hoje ninguém me faz vir nas certezas que retenho, que evito ao som do silêncio.
Pois hoje nada sou, sou infortunada, aquilo que fui de mim, fez-se mal amada, quis sentir-me e só me sentei, a ver as estrelas, mudadas pelo vento, que apesar de longe sabe movê-las da sua sedução. Malditas estrelas que são como eu, vem o vento tapá-las e elas se vão, na frieza se ficam para amanhã voltar o seu brilho constante que não sabe amar, dependentes daquilo do qual dependi são as estrelas mais amadas, e eu assim morri.
Vou deixar de me ler como li as estrelas, orações talvez me façam dormir, e hoje nada me faz rir, hoje nada me faz vir nos entretantos. Fiz saber-me no encanto que não há tal coisa. Entretantos vêm e vão. Se ficam já não existem e é certo que, se persistem, não farão ninguém rir.
Falemos de confiança, ou talvez não. Ficarão no silêncio como a paixão, que a paixão que se fala não tem destino.
Sentei-me, há pouco, no chão da varanda, o destino não me levou a mais nenhuma artimanha, estou cansada. Falarei mais de mim, no sorriso das estrelas, quando me souberem ler, saberei eu lê-las. E a paixão surgirá pela natureza, se me trouxer mais que apenas a sua beleza. Estou a rimar demais, vou-me deitar que a poesia por si não me vai trazer amor. Deduzo que as palavras ficarão assentes lá onde estão as estrelas, talvez como eu, dementes.
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