O papel rasgado num canto é demasiado grande para o que tenho para te dizer no bilhete de partida. Partir ou chegar vem hoje disso, da libertação do sobretudo de culpas que vestes, da minha libertação das tuas culpas.
O bilhete de partida é sempre mais caro que o de chegada, ou volta, e aqueles que dizem que somos feitos de estrelas não sabem da missa metade, mas talvez isso explique os brilhos e as luzes que foram apagados quase de longe, por tão perto terem acontecido partilhas.
Não sei nem ninguém sabe sobre as promessas, as desculpas e os "obrigados" que pagavam cada gesto, como se fosse um negócio de sentimentos, compra e venda de sentimentos. Derretê-los para revenda. Que comédia de interrupções alienadas sobre inteligências esquecidas, tal e qual como o que é dito e se esquece de seguida, é hilariante a efemeridade dos carinhos quando as tormentas se sobrepõem.
Entrei no comboio para voltar, na última carruagem para não me seguires, com o papel rasgado sem palavras, repleto de sentimentos que me castigam por não querer voltar. Num bolso, o bilhete, no outro, um rasgão que me permite guardar lá o amor que tinha para dar, vai escorregando aos poucos, fazendo-me tropeçar a cada passo. E é assim que eu me desgraço. E de desgraças é o amor feito, e desfeito.
Vesti-me a preceito para me dizer que me amo, e não esperarei pela noite para não mostrar mais infortúnio às estrelas, que morrem para viver mais. E quando eu morrer, quando eu morrer não quero ser uma estrela, quero ser chuva, antes chuva, Inverno, frio, e aroma a tílias na Primavera. Ai pudera eu.
A dor não paga aluguer, a dor não sabe ficar num só lugar do corpo. E se não fica é porque nunca houve amor. Mas vou chegar, quando chegar, encontrar-me no destino que me espera, dizer-me que me amo para me doer a cada dia mais. São tantas dores quantos amores que me tenho e não tenho corpo para mais dor. No final é só o amor que me quero.
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