quarta-feira, 30 de agosto de 2023
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023
quinta-feira, 12 de janeiro de 2023
É que realmente o amor está a escassear com o mundo. Todos pensam no dinheiro. Que máquinas! E nós que julgáramos que viriam os robôs no século XXI e afinal andamos aqui feitos homens de lata em busca de um feiticeiro de Oz, ou de dós, mas não em busca de coração.
Rais partam os desamorosos que por se acharem demorados nas suas pressas se esqueceram que é preciso muita lata para se esquecerem do valor da empatia. E se invertessem a história, desamarelariam o caminho, fariam-no mais verdinho, reluzente, fértil.
Rais partam os demorados que se fazem cheios de pressas, não sabem que perdem o óleo que lubrifica a reflexão às antagonias. Que delas nem sequer vivias.
Quais robôs, homens de lata, perde-se o amor no caminho desmantelado até ao feiticeiro de Oz que o tornará facilitado. Que esse lubrificante, não traz amor de repente, nem coração desalmado. Até o menino vê sangue quando cai e fica aleijado.
Rais partam o homem de lata, as máquinas, os robôs! Não somos feitos de prata e até o amor tiram de nós!
sábado, 19 de novembro de 2022
Talvez as guerras de cada um sejam pequenas demais para mover mundos, mas e se para irmos à nossa pequena guerra também tivéssemos que nos mover no mundo. Seria tão mais fácil se conseguíssemos agitar o mundo de forma a não ser preciso fugir de casa para ir para a guerra. A nossa casa ficaria mesmo ali ao lado. Mas essa ideia de que a nossa casa fica mesmo ali ao lado faz temer o improvável, faz pensar que por causa da nossa pequena guerra tenhamos que não voltar lá. É que parece que a nossa casa fica mesmo ali ao lado.
Talvez as guerras de cada um sejam pequenas demais. Mas criam fossos abismais que um qualquer cavalo alado não conseguiria ultrapassar. Essa distância a que as guerras nos obrigam, a atravessar pontes e estradas de alcatrão mal refundido, só para ouvirmos uma canção de embalar. As guerras fazem crescer, sim, mas e se eu quisesse ficar pequenina ao ponto de voltar a poder aconchegar-me no colo da minha mãe ou do meu pai ou dos meus irmãos?
Não quero ir para a guerra. Não quero.
Mas aqui estou, nas trincheiras, preparando futuros soldados nesta luta que ainda a mim, já grande demais para o conforto de um qualquer colo, me custa.
Talvez os soldados sejam pequenos demais. Talvez as trincheiras sejam desiguais. Talvez a exposição a que me subjugo seja por querer um futuro melhor e sem guerras. Mas enquanto há terras, há guerras. Enquanto há trincheiras, haverá tropas fuzileiras. Vou na primeira levada, na segunda, na terceira, com o temer de não haver mais casa, a tremer na falta de conforto que ameaça pelo medo de perder um lar. Mas não há outra forma de acabar com as grandes guerras senão ir em primeiro lugar, sem saber qual o lugar, voo no meu cavalo, que pouco ou nada tem de alado, mas que me leva de volta, quando eu o chamar. A casa. Ao conforto do meu lar. Ao colo. Entre as trincheiras. Debaixo do solo.
quinta-feira, 21 de abril de 2022
quarta-feira, 13 de abril de 2022
domingo, 3 de abril de 2022
Dias que se passam sem ideia do que será capaz de nos tranquilizar. Domingos atentos aos mais variados sons porque o dia de trabalho é em casa ou porque simplesmente na má fé de se manifestarem presentes, fazem barulho. Domingos, dias de trabalho. Lavar, aspirar, varrer, estender roupa nos esticadores enferrujados que chiam como um bicho qualquer sofredor.
Há também os domingos que são dias de passeio, de missa, de cruzar o faz de conta nos cumprimentos maliciosos que se dão a pessoas que já lhes foram próximas, ou que de alguma forma, lhes causam inveja. São domingos de passear a vestimenta mais bonita juntamente com os sorrisos mais falsos.
Não é bom julgar a dor dos outros, ainda pior é achar e bater o pé dizendo que as próprias dores são sempre as piores.
Há domingos em que os cães uivam. E esses domingos duram quase a semana toda. Os domingos de descanso também existem, mas os aspiradores e os sofás a arrastar entre outras coisas que tais fazem valer o trabalho de quem não faz mais nada da vida senão trabalhar ao domingo para depois se pavonearem no café a gabar-se do trabalho que tiveram. Se calhar até foi bastante, mas de sagrado nada tem a não ser que ofereçam a Deus os sacrifícios e que peçam perdão pela coscuvilhice alheia do resto da semana. Com os aspiradores e as máquinas e as vassouras e afins não sei se Deus conseguirá ouvir, mas que Deus os perdoe.
Peguei na guitarra para não ouvir os uivos dilacerantes dos cães, que a 3 ou quatro blocos de casas auferem uma dor superior à dos que trabalham, seja ao domingo, seja nos outros dias da semana. Respeito-os. Tomara que o respeito fosse mútuo.
Pois peguei na guitarra porque não sabia já o que fazer para me libertar da quantidade de trabalho que trago para casa ao fim de semana. Não sabia se haveria de escrever, de cantar, de gritar ou de uivar como os coitados dos cães que se sentem abandonados (só não queria ouvi-los, sentem-se as dores mais profundas ao partilhar deles a mesma solidão). Mas assim foi, peguei na guitarra e comecei a uivar. Ao fundo as máquinas pararam, os aspiradores desligaram-se, os esticadores dos estendais da roupa deixaram de se ouvir e pareceu-me, de perto, ter ouvido um "Chiiiiuuu". Dois "Chiiiiu". Carreguei mais nas cordas para tentar ouvir o terceiro. Não houve terceiro.
Arrumei a guitarra. Meia hora da modinha do "caga-cão" a imitar os uivos dos cães da vizinhança surtiu o efeito que à partida eu pretendia.
Mas de muito perto do lado de onde vieram os "Chiiiiuuu", continuam as máquinas, os móveis e os aspiradores.
Desisti. Mais logo volto a uivar.