quinta-feira, 3 de junho de 2021

No caminho para todas as praias que conheço em Portugal, ou pelo menos daquelas de que melhor me recordo, há sempre aquela casa pintada de cor de rosa no exterior. Lembro-me de, em criança, associar a casa cor de rosa ao "estamos a chegar". O momento da chegada embebia-se num aroma a maresia e a salitre, num cheiro que se prendeu na minha memória como a naftalina, mas melhor, num sentido melhor. Mas a casa cor de rosa. Os canaviais à beira da estrada e as suculentas que crescem na areia eram, para mim, o sinal de que o mar já estava perto. Hoje não reparei nesses pormenores que tanto me deixavam ansiosa na infância, hoje fui eu que levei o carro e não havia pressas. Estava sozinha, por isso também não houve grandes sorrisos. Ficou só o mar.

À medida que cresci, o mar foi perdendo ou ganhando créditos, as marés mudaram, e há mais praias.

Hoje talvez sonhe mais com o cheiro do regresso a casa depois das férias, ver as persianas corridas e a casa limpa e pronta para me receber. (...) 

sábado, 8 de maio de 2021

Sentámo-nos em pedras onde crescem aquelas flores pequeninas que lhes dão um tom rosa digno dos contos de fada. Não sabemos nem tão cedo saberemos o seu nome. Quando crescemos, redescobre-se o que é a amizade, e que é algo muito maior que as palavras com que a descrevemos aos mais pequeninos. No fim de contas, a amizade é o que vêem e recebem de nós. Às vezes é estarmos calados quando queremos falar e falar quando devíamos estar calados, mas sem imposições. Às vezes é sentarmo-nos naquelas pedras onde crescem as flores pequeninas que parecem cor de rosa mas que são afinal brancas, e imaginar que são azuis como o céu de onde se desvenda a sombra que é criada pelas nuvens nos socalcos. E às vezes a amizade é só isso, sem mais nada: uma palavra que, sem ser dita, se compreende, um abraço que sem se poder dar, se sente. 

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

 Querem os restos da chuva que continua a cair que eu me desfaça em peças, qual puzzle.. Quer a Senhora das Candeias que o Verão chegue depressa e também eu. Mas, no entanto chove, e o vento tão forte parece que leva Outono, Inverno, e tudo quanto é estação.

Eu, de momento, encontro-me estacionada e revisto-me de mantas, cada qual com a sua história. Uso-as para me cobrir do frio e para me proteger da memória. Uso-as para tapar a cabeça e para me refugiar dos fantasmas e ainda assim, afago-os. São amigos, requerem conforto.

É que nesta assíncrona do vento que sopra de sul com a chuva que cai de norte, a roupa não seca e a mente peca. Fico-me à espera do sonho entre o sono e de o conseguir recordar acordada. É que hoje temos tanto medo desses fantasmas como da vida que desaba, da peste. E sorrimos quando, do horizonte a resposta chega a cores: aquele perfume a tílias em que prendemos amores, e sonhos.

No fim, tudo o que passa disso são transtornos. Tornemo-os risonhos, não medonhos. Tornemo-os conquistas imprevistas. Sejamos quem somos, cada um por si, mas menos egoístas. 

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

 Esta tarde deparei-me a caminhar com uma vontade de sentir o calor do frio como há muito não subscrevia. Senti saudades. Na Avenida da Liberdade senti uma prisão aos sentires alheios que me entristeceu, que me fez duvidar da pseudo-vaidade que tinha em ser eu.. Não sei razões. Como alguém que deambula sem sonho fui-me rebuscar ao calor dos olhares dos amantes que se escondiam à vista de todos em bancos de jardim, e reluziu dentro de mim a saudade, quais luzes de natal no centro da cidade, senti saudades de mim.

Andei tanto quanto o possível, com medo de descer e não ter pernas para subir, juntei os meus trapos e os meus remendos e endireitei as costas, porque só assim se consegue olhar e ver, reparar na luz, na iluminação. Tudo o resto são sombras. Escreveria o livro da pandemia, o da pandemia e o do pandemónio, mas escasseia-me o tempo e não há cabeça para obras.

Fechei para manutenção antes que algo avarie, porque nestas luzes que o Natal traz, podem falhar uma, duas, que às três falha tudo de vez. 

Até qualquer dia em que me iluda. Em que o sentimento a minha alma desnude. Porque hoje, só hoje, caminhei em cima das minhas sobras, de costas direitas, passo largo e veloz, para não ter que ver, para não ter que reparar, porque tenho inveja desses amantes que não ligam ao pandemónio. 

domingo, 7 de junho de 2020

A razão de não ter razão desde que acordei esta manhã, deixou-me impertinente, e ao contrário do frio que se sente para fazer viés ao calor que já me tocou, não estou em equilíbrio. 
Disseram, como eu já perspetivava, que todos morremos jovens. Essa lengalenga que nos encosta à parede faz dissipar os sonhos que se revoltam contra a espada. Faz-me julgar que, no fim de contas, queria ser jovem, pois acho que já gastei todas as vidas. Não quero revigorar a minha demência em prol da de outrem, cada demência tem a sua ciência. Para quê ter razão, se necessitamos que alguém nos diga que temos. Guarde-se então a razão naquela caixa mais pequena e no lugar mais escondido, porque entre ela e a demência, é a segunda que tem mais ciência. 
Parei para escrever, de escrever, parei. O tempo consome-se e o muro continua feito buraco no chão, fissura de tal profundidade na qual caí. De um lado, espada, do outro, parede. 
Talvez a loucura me fizesse companhia se eu guardasse a razão que não tenho porque ninguém ma dá nessa caixinha de Pandora. Fico pela ciência da demência e mando a razão embora. 

domingo, 24 de maio de 2020

Quando quis permanecer não soube ficar
Quando fiquei, agora, tenho sede de fugir,
Acabei sentada em estilhaços, chorando para não rir,
Esperando, do mar, os seus passos, permite-lhe para me amar.

Acordei, deitada na areia, depois de um sonho macabro,
Renunciei ao silêncio, da palavra me fiz devota,
Parti o relógio com o tempo, porque só o mar vai e volta,
Não sei quem ficou de mim da ida, não sei onde mais acabo.

Testei o tempo, o corpo, no ser procurei guarida,
Quis revolver-me nas ondas, que só sonho, já não olho.
Tentei, juro, tentei, guardar o que foi nessa ida.

Quis escrever uma história inteira, como rosa que não colho,
Uma linda perspetiva de como se fica da fugida.
Do mar que me levou, além da palavra, nada ficou.
Do sonho acordei despida daquilo que o tempo matou.

Antes, eu, que sentia o sim, envolvo-me e visto-me em nãos,
O medo tomou o poder, já não sei ser.
Procuro no meio da areia, como concha, a minha alma,
Mas estou sentada nos escombros, que o medo levou-me a alma!

Fragmentos

Aqueles pedaços que fui deixando de mim, nas paredes, nas janelas,
Por onde passo e olho, se revestem de entradas e saídas.
Ficam os desaparecidos pelas quedas desprendidas,
E as recordações de mim já não encaixam por entre elas.

Fragmentos são grandes e pequenos, de estatura média,
Altos, baixos, fortes, magros, entorpecidos,
Fragmentos que não se encontram, estão já perdidos,
E a linguagem que já não volta tem curta a rédia.

Cacos de louça, de vidro, muitos tantos de cristal, tentei colar,
Para guardar as jóias que me sobram do desapreço,
Vagueei pelas ruas do medo sozinha para os encontrar,

Fui dar com eles soltos, e de esperança em mim padeço,
O querer fica mais fraco na vontade de guardar,
Todos os fragmentos que dentro do coração esqueço.