sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Esta manhã surpreendi-me pela falta de memória. Esqueci o meu nome. Esqueci quem sou, Perguntei às paredes que ouviram o meu sono se algo sussurrei fora do normal, mas nem elas escutaram os meus sonhos. Esta manhã, quando acordei, quis ser real. Não o real da monarquia, mas algo que se pode tocar e sentir, e perceber na objectividade do mundo, mas a verdade é que nem o meu nome recordei. Parece impossível.
Quis ser princesa, quis ser dragão... Nos meus sonhos incluí todas as espécies raras do senão, única forma de sentir e ser sentida, através do inconsciente. Talvez por isso durma tanto, por ser impotente, por ser infértil à velocidade do tempo, Sinto-me velha, ainda antes dos 30. Procuro a paz.
Rasgo as folhas do que escrevo para não ferir a susceptibilidade alheia. Vivi sempre assim, com medo de ser. Podia ser, podia crescer assim, princesa num castelo de papel, textos inacabados, domesticar este dragão... Mas esse monstro de fogo também sonha, sobre mata e floresta a arder, tal pirómano da vida, esse dragão... Se eu quisesse ser princesa, não me faria crescer. 
Procuro assim o meu nome, pois já assinei, já assassinei tudo o que fui, tudo o que fiz, tudo o que sou. Nascer de novo, não, estou velha. Velha para princesa, velha para dragão. Resta-me dormir neste castelo de papel ao qual chamo senão. 

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Gritemos fogo na afonia do visível com que o castigo nos contenta. Gritemos fogo sem que o tempo faça de nós um mito sobre o que gostávamos de ser. Se falar de mim me faz sentir pequena ilusão prefiro ser cega para o que não me contenta, prefiro não falar de mim. Se gritar fogo me faz quente talvez o faça cantando: pequenas canções que escrevi faz anos e que já nem sei o tom, que já nem sei cantar. Talvez o faça gritando. Grita comigo se isso te dá prazer, se a euforia de estares na minha ilusão te faz ter mais de mim, porque não gritas comigo? Soube-me demais no que algum dia tive de mim, um controlo infortúnio entre poesia, literatura, arte, consolo e afins, se é que algum dia soube algo, soube-me assim. Podia gritar fogo da cinza que minto ao incontornável desejo de não querer ser nada. Ninguém quer ser nada. Eu queria ver se a chuva parava para poder ver a água secar no caminho, eu queria ver se o tempo parava.

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Foi assim que soube. Ser mulher implicaria um desespero profundo cáustico em vontades de proteger e gélido na necessidade de protecção. Ser mulher sem ser é um segundo de cansaço e a admissão de carências que se tornam vícios à construção de uma depressão. Ser mulher é inversão de papéis, tentar tirar conforto do conforto alheio, imparcial e intocável, quase inatingível. Ser mulher implica então tomar um papel de homem, 24h por dia, até fatigar, e após isso mendigar uma espécie de carinho como se fosse necessário pagar por ele uma fortuna. Ser Mulher, digo. Até fatigar. Foi assim, quase do nada, que soube que em ser Mulher não deve haver espaço para ser mulher.

quarta-feira, 25 de março de 2015

Entrego o que tenho. Entrego tudo o que tenho para me ver livre dos demónios.
Vivem debaixo da minha pele como sanguessugas que me feriram fundo os medos, que penetraram nas ranhuras das unhas dos meus dedos para me fazerem dizer que não. Os demónios não me dão sossego, os demónios tiram-me a razão! E até o sentir que já senti foge, como abutre inconsolado, rastejante lagarto alado, não tem já o que comer. Guardou tudo p'rós demónios, esses seres fúteis e erróneos que quero ver morrer.
Sentada numa mesa hipotética, e hipoteticamente de lápis na mão, rabisco palavras umas a seguir às outras. Qual letra de médico, qual quê. Custa-me a acreditar que o poder da invisibilidade do sentimento seja assim corrompido. Nesta ponta da mesa imagino-me no meu redondo pensamento de arestas interiores feita quartzo ametista de uma beleza que se confunde com a passiva-agressividade em que me verto. Bebo um chá para chamar o descanso, inoportuno anjo que desaparece em castigos contínuos, bebo o chá onde fervi a paz. Acho que a fervi demais, ficou amargo. Pois é, a paz deve beber-se a puro.
Bem, sentada nesta mesa hipotética e hipoteticamente falando descasco as palavras que rabisco como corpos que usei um dia na imaginária procura de mim, e o que fui entretanto fez-me assim. Ai! Como me revolta a inconstância deste tempo em que mal me sinto. Não sei se o perca ou se me desminta à velocidade fraca em que conjugo as palavras que tanto tento ver nuas. Ai! O que será de mim se me faço transparente e me minto opaca. Não sei de onde vem a revolta, sei que me desfoca, tão intensamente que me ofusca o escuro. O chá acabou. E eu preciso profundamente de um aroma a tílias. O chá de paz não me bastou.

domingo, 25 de janeiro de 2015

No final do início daquela noite o baralho estava inteiro. Uma carta para cada lado indicava que havia já algum tempo que não jogávamos a perder. Acontece que ganhámos. Ficou montado o cenário típico de cinema, gravado no meu corpo, ficaste, em mim. Nada disso me disse que o final desse início seria o fim. Impregnados da justiça com que nos julgámos, foi entre tantas, entre nós, mais uma noite no repertório. Mais um sabor nos teus sabores, mais um cortejo de esplendores que guardámos só para nós, e enfim, sós, cheios de tudo, aquele olhar mudo que não engana. Aquele carinho com que apagámos a nossa gana de calor. Fica assim para nós, o nosso filme escondido. Não foi marcado a não ser na nossa mente, tal sala de cinema, tal poema. Nós.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Sou dona de tudo o que não tentei, até das angústias cerradas, nevoeiro pintado de luzes nas estradas. Sou dona dos poucos propósitos e das indignações, daquilo que me fez minha e das suas razões. Sou dona daquilo que pintei, do que escrevi, da minha herança de sacrifícios e de pequenos tudos que já vivi. Chamei-lhes "tudos".
Sou dona dos anos, do tempo que agarro, sou dona do tempo que perco sentada nesse raro esquema de futuros onde me deixo inconsciente dos pequenos-grandes segundos que passam. Indignada.
Fui tudo o que não me deixei amar e por quem não me deixei ser amada. E ao final das contas não vejo as luzes do outro lado da estrada. Fiz-me potente e impotente, senhora e mulher imponente, castrada por querer ser mais, e ao final das contas, os dias vão sendo acabados todos iguais. Fintados os artifícios remato um a seguir ao outro no leito onde me aconchego, e a procura de mim vai sendo cada vez mais clara, demasiado clara. Ai, sou tal ave rara! Rara, inconscientemente clara. Já não me servem de nada palavras difíceis, mas não me encaixo nesse pragmatismo que me pede o mundo. E ele pede-mo de tão fundo, do mais fundo de mim. Quero lá saber do mundo, quero, em paz, cultivar-me assim.