segunda-feira, 17 de agosto de 2015
Foi assim que soube. Ser mulher implicaria um desespero profundo cáustico em vontades de proteger e gélido na necessidade de protecção. Ser mulher sem ser é um segundo de cansaço e a admissão de carências que se tornam vícios à construção de uma depressão. Ser mulher é inversão de papéis, tentar tirar conforto do conforto alheio, imparcial e intocável, quase inatingível. Ser mulher implica então tomar um papel de homem, 24h por dia, até fatigar, e após isso mendigar uma espécie de carinho como se fosse necessário pagar por ele uma fortuna. Ser Mulher, digo. Até fatigar. Foi assim, quase do nada, que soube que em ser Mulher não deve haver espaço para ser mulher.
quarta-feira, 25 de março de 2015
Entrego o que tenho. Entrego tudo o que tenho para me ver livre dos demónios.
Vivem debaixo da minha pele como sanguessugas que me feriram fundo os medos, que penetraram nas ranhuras das unhas dos meus dedos para me fazerem dizer que não. Os demónios não me dão sossego, os demónios tiram-me a razão! E até o sentir que já senti foge, como abutre inconsolado, rastejante lagarto alado, não tem já o que comer. Guardou tudo p'rós demónios, esses seres fúteis e erróneos que quero ver morrer.
Vivem debaixo da minha pele como sanguessugas que me feriram fundo os medos, que penetraram nas ranhuras das unhas dos meus dedos para me fazerem dizer que não. Os demónios não me dão sossego, os demónios tiram-me a razão! E até o sentir que já senti foge, como abutre inconsolado, rastejante lagarto alado, não tem já o que comer. Guardou tudo p'rós demónios, esses seres fúteis e erróneos que quero ver morrer.
Sentada numa mesa hipotética, e hipoteticamente de lápis na mão, rabisco palavras umas a seguir às outras. Qual letra de médico, qual quê. Custa-me a acreditar que o poder da invisibilidade do sentimento seja assim corrompido. Nesta ponta da mesa imagino-me no meu redondo pensamento de arestas interiores feita quartzo ametista de uma beleza que se confunde com a passiva-agressividade em que me verto. Bebo um chá para chamar o descanso, inoportuno anjo que desaparece em castigos contínuos, bebo o chá onde fervi a paz. Acho que a fervi demais, ficou amargo. Pois é, a paz deve beber-se a puro.
Bem, sentada nesta mesa hipotética e hipoteticamente falando descasco as palavras que rabisco como corpos que usei um dia na imaginária procura de mim, e o que fui entretanto fez-me assim. Ai! Como me revolta a inconstância deste tempo em que mal me sinto. Não sei se o perca ou se me desminta à velocidade fraca em que conjugo as palavras que tanto tento ver nuas. Ai! O que será de mim se me faço transparente e me minto opaca. Não sei de onde vem a revolta, sei que me desfoca, tão intensamente que me ofusca o escuro. O chá acabou. E eu preciso profundamente de um aroma a tílias. O chá de paz não me bastou.
Bem, sentada nesta mesa hipotética e hipoteticamente falando descasco as palavras que rabisco como corpos que usei um dia na imaginária procura de mim, e o que fui entretanto fez-me assim. Ai! Como me revolta a inconstância deste tempo em que mal me sinto. Não sei se o perca ou se me desminta à velocidade fraca em que conjugo as palavras que tanto tento ver nuas. Ai! O que será de mim se me faço transparente e me minto opaca. Não sei de onde vem a revolta, sei que me desfoca, tão intensamente que me ofusca o escuro. O chá acabou. E eu preciso profundamente de um aroma a tílias. O chá de paz não me bastou.
domingo, 25 de janeiro de 2015
No final do início daquela noite o baralho estava inteiro. Uma carta para cada lado indicava que havia já algum tempo que não jogávamos a perder. Acontece que ganhámos. Ficou montado o cenário típico de cinema, gravado no meu corpo, ficaste, em mim. Nada disso me disse que o final desse início seria o fim. Impregnados da justiça com que nos julgámos, foi entre tantas, entre nós, mais uma noite no repertório. Mais um sabor nos teus sabores, mais um cortejo de esplendores que guardámos só para nós, e enfim, sós, cheios de tudo, aquele olhar mudo que não engana. Aquele carinho com que apagámos a nossa gana de calor. Fica assim para nós, o nosso filme escondido. Não foi marcado a não ser na nossa mente, tal sala de cinema, tal poema. Nós.
segunda-feira, 12 de janeiro de 2015
Sou dona de tudo o que não tentei, até das angústias cerradas, nevoeiro pintado de luzes nas estradas. Sou dona dos poucos propósitos e das indignações, daquilo que me fez minha e das suas razões. Sou dona daquilo que pintei, do que escrevi, da minha herança de sacrifícios e de pequenos tudos que já vivi. Chamei-lhes "tudos".
Sou dona dos anos, do tempo que agarro, sou dona do tempo que perco sentada nesse raro esquema de futuros onde me deixo inconsciente dos pequenos-grandes segundos que passam. Indignada.
Fui tudo o que não me deixei amar e por quem não me deixei ser amada. E ao final das contas não vejo as luzes do outro lado da estrada. Fiz-me potente e impotente, senhora e mulher imponente, castrada por querer ser mais, e ao final das contas, os dias vão sendo acabados todos iguais. Fintados os artifícios remato um a seguir ao outro no leito onde me aconchego, e a procura de mim vai sendo cada vez mais clara, demasiado clara. Ai, sou tal ave rara! Rara, inconscientemente clara. Já não me servem de nada palavras difíceis, mas não me encaixo nesse pragmatismo que me pede o mundo. E ele pede-mo de tão fundo, do mais fundo de mim. Quero lá saber do mundo, quero, em paz, cultivar-me assim.
Sou dona dos anos, do tempo que agarro, sou dona do tempo que perco sentada nesse raro esquema de futuros onde me deixo inconsciente dos pequenos-grandes segundos que passam. Indignada.
Fui tudo o que não me deixei amar e por quem não me deixei ser amada. E ao final das contas não vejo as luzes do outro lado da estrada. Fiz-me potente e impotente, senhora e mulher imponente, castrada por querer ser mais, e ao final das contas, os dias vão sendo acabados todos iguais. Fintados os artifícios remato um a seguir ao outro no leito onde me aconchego, e a procura de mim vai sendo cada vez mais clara, demasiado clara. Ai, sou tal ave rara! Rara, inconscientemente clara. Já não me servem de nada palavras difíceis, mas não me encaixo nesse pragmatismo que me pede o mundo. E ele pede-mo de tão fundo, do mais fundo de mim. Quero lá saber do mundo, quero, em paz, cultivar-me assim.
quarta-feira, 12 de novembro de 2014
Não me vou deixar de encantos nesta epidemia de cidade. Foram poucas, mas violentas as inconstantes defesas de ti, e não vou escrever de amor.
Pela janela me lavo das promessas na chuva que corre e os passos que deixo no caminho são como poças de água onde cultivo os meus levantes. Pergunto-me se vou para longe ou não, e talvez não te leve comigo. As pequenas palavras pouco me dizem respeito e eu queria tanto ser mais, mais do que isso, mais do que apenas isso.
Não se cheiram as tílias, não me conformo sobre os aromas que esta chuva apaga, não me informo sobre o que são e estou sinceramente cansada de dizer não: só quero ser mais.
Se me deixar de encantos nesta epidemia de cidade talvez cresça, mas é preciso que tal mexa com a responsabilidade, é preciso que tal mexa com os meus encantos.
A cidade não dorme, ninguém dorme na cidade. E as ruas, essas, nuas, no seu frio se resultam. São poucas as possibilidades de fuga, mas talvez assim o faça, talvez assim me faça. No querer ser mais. No querer ser mais cada pessoa se suscita, se submete, se precede ao futuro inconsciente, inconsciente do que se tem e do que se faz falta.
A aurora estrebucha o rigor dos ossos, e sem vontade cada um sai à rua pela simples obrigação de se sentir vivo. Quero fugir. Vou fugir.
Pela janela me lavo das promessas na chuva que corre e os passos que deixo no caminho são como poças de água onde cultivo os meus levantes. Pergunto-me se vou para longe ou não, e talvez não te leve comigo. As pequenas palavras pouco me dizem respeito e eu queria tanto ser mais, mais do que isso, mais do que apenas isso.
Não se cheiram as tílias, não me conformo sobre os aromas que esta chuva apaga, não me informo sobre o que são e estou sinceramente cansada de dizer não: só quero ser mais.
Se me deixar de encantos nesta epidemia de cidade talvez cresça, mas é preciso que tal mexa com a responsabilidade, é preciso que tal mexa com os meus encantos.
A cidade não dorme, ninguém dorme na cidade. E as ruas, essas, nuas, no seu frio se resultam. São poucas as possibilidades de fuga, mas talvez assim o faça, talvez assim me faça. No querer ser mais. No querer ser mais cada pessoa se suscita, se submete, se precede ao futuro inconsciente, inconsciente do que se tem e do que se faz falta.
A aurora estrebucha o rigor dos ossos, e sem vontade cada um sai à rua pela simples obrigação de se sentir vivo. Quero fugir. Vou fugir.
sábado, 11 de outubro de 2014
Podia dizer que o mundo se vira ao meu passo. Lentamente, quanto o diferente que eu posso ser. Mas as palavras não dizem o que eu sou ou o que eu dou, e lentamente o mundo se mente.
Se ao voraz que o vento se faz são colhidas sementes do que se constrói, é o moinho que mói tão capaz de me dizer mais que aquilo que o que alguma gente sente.
Se ao voraz que o vento se faz são colhidas sementes do que se constrói, é o moinho que mói tão capaz de me dizer mais que aquilo que o que alguma gente sente.
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