quarta-feira, 17 de setembro de 2014


Imagino-me presente num quarto onde se fazem audições sobre quem cai melhor de pés assentes na Terra. E que poderei fazer eu, se mal sou capaz de tirar os pés da Lua. Como escrava da minha própria saudade sou capaz de escrever passos para trás no intento de desfazer outras aventuras. O que me tortura é hoje a semente do que irá ficar para me impedir de conseguir sentir aromas, de conseguir sentir amores. Se a própria relatividade me puxa a favor de um horizonte, estremeço feita sismo que se desloca pelas ondas de um oceano, mas não há oceanos na Lua que piso, na lua que me fez tua, que me fez sua, que me fez minha, talvez, entretanto. Penso que não, não há oceanos na Lua.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Peço um fundo negro às minhas palavras além dos segundos que perdi ao pedir-te um tempo. Embalo-me num sossego fictício de esporádicas mensagens que me agitam. Pergunto-te se sonhas sobre mim porque o impossível fica nos sonhos que tiveste comigo, se os tiveste. Ainda neste fundo negro aquitecto-me entre incapacidades de te fazer sofrer, como tanto queria, fazer-te sofrer. Essa barreira de onde te atiras para caíres é baixa demais para morreres, e se do pedestal onde tu e só tu te assistes te deixasses seria o mais frívolo acidente a que te sujeitarias. Sujeita-te.
Peço um fundo negro e um pano incolor para taparem as inconsequências de que foges, nem sequer te sabes fugir. Sujeita-te, então. Pequenos passos são grandes quedas e tropeças-te constantemente como se não houvesse amanhã. E para ti não há amanhã. E o sabes. Pelas escadas abaixo cai-te o orgulho que já te foi seguro um dia, esquartejado em pedaços que vais apanhando no caminho de volta para o lugar de onde vieste, abaixo de um certo Inferno onde te odeio, eu e tantos outros 'tus' que me fazem não querer saber mais da simpatia ou do pecado.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Acordámos deitados do mesmo lado da cama, em confortos diferentes. E desta vez ficou algo, mas o tempo corta-nos a fasquia, temos que fugir. Ao invés de um beijo ou daquele "amo-te" que ambos escondemos entre medos e desconquistas infelizes, nem tempo resta para nos consolidarmos. Bom dia, temos que ir. E o "amo-te" que antes nos foi roubado violentamente fica mais uma vez guardado para a próxima vez, ou a vez a seguir à próxima. Talvez seja melhor assim se o sentimos realmente. Não me recordo da última vez que me despedi dos teus sorrisos, recordo-me do primeiro beijo embriagado, confuso entre as vontades e os segredos.
Aceleras-me o passo e pedes-me para ficar, só mais um pouco, entre o clandestino e o rebelde do que foi surgindo em nós. Ficamos aventureiros a descansar mais um pouco, só porque temos quem nos controle o tempo. Antes assim, controlados pelo presente. O passado que nos construiu é hoje tão rebelde como nós o somos, e o futuro não nos pode prender. De planos, quero apenas este lugar plano onde repouso contigo, onde me castigo apaixonada sem o assumir, onde permanecemos vadios e fúteis, egoístas encerrados, neste lugar plano que nem sequer é nosso ou de cada um.
Não me perguntes quem sou, sabes até melhor que eu talvez e ainda assim pensas que me amas. Eu sou distraída demais para saber quem és, mas sei como és e como me tens, e tudo isso segura-me e inoportunamente faz amor comigo mesmo quando não estás. Não estás do meu lado nesta cama, mas acordámos deitados do mesmo lado da cama, em confortos diferentes.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Sou dona das minhas cicatrizes. Até daquelas que nunca te mostrei. Tenho uma por baixo do meu braço esquerdo e outra quase sarada perto do coração. Sou dona das minhas incertezas e de outras tantas que não me dizem respeito, que junto das suas contrariedades fazem borbulhar carinhos inconstantes que apagam a lua.
Falta-me o vício da escrita como oração que costumo usar para adormecer. É que não arranjo já inspiração como antes, expiração, e não me apetece falar de cansaço ou de sorrisos, não me apetece falar de pele tocada ou amores.
Quando a luz do Sol aparecer pela manhã, não lhe vou dizer que não, mesmo que não haja oração que me convide a ser feliz. Gravemente estico as tuas influências para impercepções sobre um mundo que não conheço e do qual me faço indeferida, e se por acaso fechares os teus olhos demais, não te lembres de mim, que as minhas cicatrizes impedem-te de me ver com claridade. Esse teu mundo é muito jovem para achares que o tens de verdade, portanto, não feches esses teus olhos até à cegueira, que o teres-me inteira é plena utopia carregada de infortúnios: os teus e os meus.
Devagarinho os bebo, aos meus segredos que insistem em ser maiores e nem eu os sei. Procuro saber por onde vou sem me render ou sem me vender aos teus caminhos que são cada vez mais longos.
Chego a casa já sem palavras, e convenço-me incessantemente que de nada me serve gastá-las. É como o tempo, ora chuva, ora frio, calor ou estrelas, mas a lua, mesmo apagada, está sempre lá. Estás sempre lá.