quarta-feira, 23 de julho de 2025

Tanto venho à procura do ar fresco no calor, que me constipo.
Sim, tenho a plena consciência de que uma constipação noutras línguas significa outra coisa, mas nesta minha realidade tendo a ser nacionalista. Os eucaliptos talvez estejam a ajudar ou a piorar, pois esta treta já me faz estalar o ouvido.
Os auscultadores lá me vão criando alguma paz na inconsistência de, num lugar de paz, tal igreja ao ar livre, os corta-relvas ressoam.
Não posso ir para a igreja procurar paz a ouvir música pois com certeza seria excomungada.
Então por aqui fico, com o livro a querer chegar ao fim e outro na mochila: curiosamente "A Voz do Silêncio".
Aguardo com ansiedade que os homens, que estão a ganhar o seu tostão e bem, terminem de evidenciar, na lama que ficou da rega automática, o resto dos buracos do pântano. Eu, que nada sei disto, pergunto-me se não haverá problemas na engrenagem das máquinas com a terra e a água lá no meio. Parece-me também que os reservatórios ficam mais pesados e as máquinas mais difíceis de empurrar. Tenho essa impressão de que já passaram centenas de vezes no mesmo lugar, não será ferrugem no corta-relvas?
Bem, adiante, a música até está boa, diferenciada e nada que me impeça, de facto, de ir à igreja.
Era já demasiado crescida quando me deu, pela primeira vez, a vontade de ir molhar os pés ao pântano num duche de vai-e-vem dos repuxos da rega automática.
E falando em constipações, coitados dos homens que devem estar ainda pior do que eu: meios surdos do barulho das maquinetas e sujeitos a levar com a frescura da brisa depois dos banhos de rega. Deve fazer crescer pêlo na benta!

terça-feira, 23 de abril de 2024

Dei-me um nome diferente,
Esperança de não pensar.
Não pensar que por ser gente
Devo a vida a um pesar.

Então, no consolo de mim
Inventei identidades
Pensei que seria assim
Que ressentisse verdades.

Viro as costas a este mundo
De costas para o espelho por trás 
Sem olhar procuro o fundo 
Daquilo que sou capaz. 

As tílias são de outra terra
De outra ilha que deserto
E eu não sei que bicho ferra
Nem de coração aberto.

Doei-me um nome diferente
Ninguém sabe o quão antigo,
Mas não vou olhar de frente
Se o espelho é meu inimigo.

Um contratempo a que digo,
"Um dia de cada vez"
Mas penso para cá comigo
Não fui eu quem me desfez.

Essa vergonha que têm 
De tudo aquilo que escrevo,
Só por me crer desarmada
Não digo que tenho medo. 
Não tenho medo. 

quarta-feira, 30 de agosto de 2023

E alguma vez me perguntaste porquê?
Porque se o tivesses feito fugiria à bruxaria para te dar razão.
Mas nem àqueles sonhos, infortúnios,
Previsões subjugadas,
Até aos que para mim guardo,
E às palavras mal amadas,
Nem nas ditas com castigo, a mim,
Encontro refúgio.
Então porquê perguntares-me porquê,
Se nem sequer eu já me leio,
Quem mais será que me lê?

Já nem quero dormir, que adivinho coisas,
E se sorrio, temo pelas razões.
Sinto-me amaldiçoada pelas minhas emoções
Que na frieza das palavras que profiro ninguém vê.
Faz um favor a ti próprio,
Deixa-me neste relento
Que o silêncio da tortura que encontro na solidão
Não é o que me traz alento.
Mas faz um favor a ti próprio e não me acordes, mesmo no meu não adormecida
Nem ouses sequer perguntar-me "porquê". 
Nem o perguntes à vida. 

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023

Preenchem-se de pretextos
Essas cadeiras vazias,
Vão com sentires e azias,
E outros mais-quereres desfeitos.

De tudo se fala um pouco
Borbulha d'entre as paredes
Discutem fomes e sedes
Ao ponto de eu parecer louco.

Só haverá necessidade
De eu, deitado, vir a ouvir
Alguém a chorar ou rir
A gritar em liberdade

Se alguma coisa disso
Puder eu vir a fazer,
Mas não pretendo, nem crer,
Em tamanho reboliço.

Ai! basta de converseta,
Tempo em tagarelada!
Nem tão alto há cão que ladra
Nem tão fundo a faca espeta.

É que isto de querer paz
Fica só dentro dos sonhos.
Estes hábitos medonhos
De falar pelos cotovelos
(Só para se ser escutado,
Qu'isso faz o mal amado,)
Não quero ouvi-los nem vê-los!






quinta-feira, 12 de janeiro de 2023

É que realmente o amor está a escassear com o mundo. Todos pensam no dinheiro. Que máquinas! E nós que julgáramos que viriam os robôs no século XXI e afinal andamos aqui feitos homens de lata em busca de um feiticeiro de Oz, ou de dós, mas não em busca de coração. 

Rais partam os desamorosos que por se acharem demorados nas suas pressas se esqueceram que é preciso muita lata para se esquecerem do valor da empatia. E se invertessem a história, desamarelariam o caminho, fariam-no mais verdinho, reluzente, fértil. 

Rais partam os demorados que se fazem cheios de pressas, não sabem que perdem o óleo que lubrifica a reflexão às antagonias. Que delas nem sequer vivias.

Quais robôs, homens de lata, perde-se o amor no caminho desmantelado até ao feiticeiro de Oz que o tornará facilitado. Que esse lubrificante, não traz amor de repente, nem coração desalmado. Até o menino vê sangue quando cai e fica aleijado. 

Rais partam o homem de lata, as máquinas, os robôs! Não somos feitos de prata e até o amor tiram de nós!

sábado, 19 de novembro de 2022

Talvez as guerras de cada um sejam pequenas demais para mover mundos, mas e se para irmos à nossa pequena guerra também tivéssemos que nos mover no mundo. Seria tão mais fácil se conseguíssemos agitar o mundo de forma a não ser preciso fugir de casa para ir para a guerra. A nossa casa ficaria mesmo ali ao lado. Mas essa ideia de que a nossa casa fica mesmo ali ao lado faz temer o improvável, faz pensar que por causa da nossa pequena guerra tenhamos que não voltar lá. É que parece que a nossa casa fica mesmo ali ao lado. 

Talvez as guerras de cada um sejam pequenas demais. Mas criam fossos abismais que um qualquer cavalo alado não conseguiria ultrapassar. Essa distância a que as guerras nos obrigam, a atravessar pontes e estradas de alcatrão mal refundido, só para ouvirmos uma canção de embalar. As guerras fazem crescer, sim, mas e se eu quisesse ficar pequenina ao ponto de voltar a poder aconchegar-me no colo da minha mãe ou do meu pai ou dos meus irmãos? 

Não quero ir para a guerra. Não quero.

Mas aqui estou, nas trincheiras, preparando futuros soldados nesta luta que ainda a mim, já grande demais para o conforto de um qualquer colo, me custa.

Talvez os soldados sejam pequenos demais. Talvez as trincheiras sejam desiguais. Talvez a exposição a que me subjugo seja por querer um futuro melhor e sem guerras. Mas enquanto há terras, há guerras. Enquanto há trincheiras, haverá tropas fuzileiras. Vou na primeira levada, na segunda, na terceira, com o temer de não haver mais casa, a tremer na falta de conforto que ameaça pelo medo de perder um lar. Mas não há outra forma de acabar com as grandes guerras senão ir em primeiro lugar, sem saber qual o lugar, voo no meu cavalo, que pouco ou nada tem de alado, mas que me leva de volta, quando eu o chamar. A casa. Ao conforto do meu lar. Ao colo. Entre as trincheiras. Debaixo do solo. 

quinta-feira, 21 de abril de 2022

Hoje deitei-me nas trincheiras, escondida de duas ou três guerras.
Fiz a cama em insónias acumuladas com a falta de momentos.
Aprendi que as palavras não se usam como noutros tempos,
E preparei o posto de vigia entre as serras.

Talvez não devesse escrever sobre conflitos
Hoje deitam-se eles impotentes mal entendidos,
Aqueles que se perderam, estão perdidos
Não foi vento na memória, não foram choros nem gritos.

Dormirei em buracos na terra,
Cada um ou cada qual com sua guerra
Intermitentes sonhos me dirão,

Se cada qual tem paz na sua história,
Re-nego que foi vento na memória,
Entre as trincheiras sonharei ou não.

Ana Rodrigues

21.4.2022