sábado, 19 de novembro de 2022

Talvez as guerras de cada um sejam pequenas demais para mover mundos, mas e se para irmos à nossa pequena guerra também tivéssemos que nos mover no mundo. Seria tão mais fácil se conseguíssemos agitar o mundo de forma a não ser preciso fugir de casa para ir para a guerra. A nossa casa ficaria mesmo ali ao lado. Mas essa ideia de que a nossa casa fica mesmo ali ao lado faz temer o improvável, faz pensar que por causa da nossa pequena guerra tenhamos que não voltar lá. É que parece que a nossa casa fica mesmo ali ao lado. 

Talvez as guerras de cada um sejam pequenas demais. Mas criam fossos abismais que um qualquer cavalo alado não conseguiria ultrapassar. Essa distância a que as guerras nos obrigam, a atravessar pontes e estradas de alcatrão mal refundido, só para ouvirmos uma canção de embalar. As guerras fazem crescer, sim, mas e se eu quisesse ficar pequenina ao ponto de voltar a poder aconchegar-me no colo da minha mãe ou do meu pai ou dos meus irmãos? 

Não quero ir para a guerra. Não quero.

Mas aqui estou, nas trincheiras, preparando futuros soldados nesta luta que ainda a mim, já grande demais para o conforto de um qualquer colo, me custa.

Talvez os soldados sejam pequenos demais. Talvez as trincheiras sejam desiguais. Talvez a exposição a que me subjugo seja por querer um futuro melhor e sem guerras. Mas enquanto há terras, há guerras. Enquanto há trincheiras, haverá tropas fuzileiras. Vou na primeira levada, na segunda, na terceira, com o temer de não haver mais casa, a tremer na falta de conforto que ameaça pelo medo de perder um lar. Mas não há outra forma de acabar com as grandes guerras senão ir em primeiro lugar, sem saber qual o lugar, voo no meu cavalo, que pouco ou nada tem de alado, mas que me leva de volta, quando eu o chamar. A casa. Ao conforto do meu lar. Ao colo. Entre as trincheiras. Debaixo do solo. 

quinta-feira, 21 de abril de 2022

Hoje deitei-me nas trincheiras, escondida de duas ou três guerras.
Fiz a cama em insónias acumuladas com a falta de momentos.
Aprendi que as palavras não se usam como noutros tempos,
E preparei o posto de vigia entre as serras.

Talvez não devesse escrever sobre conflitos
Hoje deitam-se eles impotentes mal entendidos,
Aqueles que se perderam, estão perdidos
Não foi vento na memória, não foram choros nem gritos.

Dormirei em buracos na terra,
Cada um ou cada qual com sua guerra
Intermitentes sonhos me dirão,

Se cada qual tem paz na sua história,
Re-nego que foi vento na memória,
Entre as trincheiras sonharei ou não.

Ana Rodrigues

21.4.2022

quarta-feira, 13 de abril de 2022

Dizem que não custa andar à chuva
Que só se molha quem quer
Dizem também que toda a vida é luta
Doa a quem doer.

Dizem que chorar faz bem, 
Que alivia a alma
Dormir em paz, também,
Traz-nos mais calma.

Quem sabe não diz,
Talvez seja, assim, mais feliz.
Quem sente não chora,
Às vezes. 
Dizem que a dor demora mais a chegar,
Talvez se seja assim mais feliz.

Dizem que quem dá nada tem a pedir,
Dar é dar, não é troca.
Dizem que quem pede sem precisar,
Não tem mãos a medir,
Não tem onde guardar. 

Aquilo que dizem a mim, pouco me importa
Nada me faz acontecer.
Contar contos dos outros são só aqueles da família
E até esses já tendo a esquecer.

Cubro-me dos pés à nuca,
Mesmo sem estar nua
E às vezes faz cá dentro mais frio
Que o que faz na rua.

Dormir em paz é o barulho de muitos
O silêncio de alguns
E a loucura de outros tantos que se somam.
Encostada ao meu peito, 
Espero sonhar quando adormecer.
Faz-me chegar e partir,
Faz-me partir e voltar,
E sem sair do lugar,
Ajuda-me a viver.

Aquilo que dizem a mim já pouco importa
Daqui a nada ou acordo, ou não
Sonhar acordada faz-me sentir morta,
E dormir sem paz, solidão. 







domingo, 3 de abril de 2022

 Dias que se passam sem ideia do que será capaz de nos tranquilizar. Domingos atentos aos mais variados sons porque o dia de trabalho é em casa ou porque simplesmente na má fé de se manifestarem presentes, fazem barulho. Domingos, dias de trabalho. Lavar, aspirar, varrer, estender roupa nos esticadores enferrujados que chiam como um bicho qualquer sofredor. 

Há também os domingos que são dias de passeio, de missa, de cruzar o faz de conta nos cumprimentos maliciosos que se dão a pessoas que já lhes foram próximas, ou que de alguma forma, lhes causam inveja. São domingos de passear a vestimenta mais bonita juntamente com os sorrisos mais falsos. 

Não é bom julgar a dor dos outros, ainda pior é achar e bater o pé dizendo que as próprias dores são sempre as piores. 

Há domingos em que os cães uivam. E esses domingos duram quase a semana toda. Os domingos de descanso também existem, mas os aspiradores e os sofás a arrastar entre outras coisas que tais fazem valer o trabalho de quem não faz mais nada da vida senão trabalhar ao domingo para depois se pavonearem no café a gabar-se do trabalho que tiveram. Se calhar até foi bastante, mas de sagrado nada tem a não ser que ofereçam a Deus os sacrifícios e que peçam perdão pela coscuvilhice alheia do resto da semana. Com os aspiradores e as máquinas e as vassouras e afins não sei se Deus conseguirá ouvir, mas que Deus os perdoe.

Peguei na guitarra para não ouvir os uivos dilacerantes dos cães, que a 3 ou quatro blocos de casas auferem uma dor superior à dos que trabalham, seja ao domingo, seja nos outros dias da semana. Respeito-os. Tomara que o respeito fosse mútuo. 

Pois peguei na guitarra porque não sabia já o que fazer para me libertar da quantidade de trabalho que trago para casa ao fim de semana. Não sabia se haveria de escrever, de cantar, de gritar ou de uivar como os coitados dos cães que se sentem abandonados (só não queria ouvi-los, sentem-se as dores mais profundas ao partilhar deles a mesma solidão). Mas assim foi, peguei na guitarra e comecei a uivar. Ao fundo as máquinas pararam, os aspiradores desligaram-se, os esticadores dos estendais da roupa deixaram de se ouvir e pareceu-me, de perto, ter ouvido um "Chiiiiuuu". Dois "Chiiiiu". Carreguei mais nas cordas para tentar ouvir o terceiro. Não houve terceiro. 

Arrumei a guitarra. Meia hora da modinha do "caga-cão" a imitar os uivos dos cães da vizinhança surtiu o efeito que à partida eu pretendia.

Mas de muito perto do lado de onde vieram os "Chiiiiuuu", continuam as máquinas, os móveis e os aspiradores. 

Desisti. Mais logo volto a uivar. 

quinta-feira, 31 de março de 2022

Foram já bastantes as situações em que, de um monte oriundo de silêncios e conversas com os comigos de mim, nada surge. Dizer que a velhice incorporada na quarta década de idade nos confunde ou nos substrai parece mal visto por aqueles que nos rodeiam. No entanto, ainda ficamos pior vistos perante quem somos ou quem julgamos que já fomos. 

Escrevo agora para me desculpar e tentar redimir aos comigos de mim que me acompanham no quotidiano mas que não têm de mim a devida atenção. Sinto-lhes falta, mas não me resta senão aumentar a espessura da redoma que nos separa. 

Talvez seja assim a vida ou a morte aos poucos. Limitadas ao morrer um pouco para viver o que tiramos à vida. Concentrar-me, então,um desgosto quase impaciente contra o qual nós obrigam a ser resilientes porque tu és só um e mais ninguém, "escolhe quem queres ser, escolhe que história queres escrever de ti, tens que escolher. Pois nunca terás a tua própria biblioteca ou quem ta leia". 

Estou guardada numa coluna, mas não me encontro lá. Um porto de abrigo onde me aqueço, quando há tempo. Mas nunca há tempo. 

Há também os que dizem "não vás por aí", mas não sabem nem julgam que talvez já conheçamos demasiados caminhos que já só "tanto faz, já sei onde vai dar". 

Sinto falta de uma viagem de comboio sem pressas, de um destino sem esperas, de um ir sem ter quando voltar. Sinto falta de um querer mais que um bem querer apesar de não ter nada para dar. 

E, em simultâneo, dá vontade de parar, de esquecer, de esquecer que se deve o que não se deve, e de lembrar que só devemos dar o que há e nada mais. 

Procuras a solidão na tua companhia, mas não sais porque já não conheces quem te acompanha, e por isso reconheces que o melhor é ficar no calor dos lençóis que, ao menos, mesmo que demorado, vão retribuindo alguma coisa ao corpo trémulo que só desejavas ver incandescente. Tu e os teus contigos de ti. 

Eu fico aqui, com os desconhecidos, a tecer desrealidades virtuosas motivadas por outras realidades que talvez sejam as mais verdadeiras. 

Eu e os comigos de mim.