Foram já bastantes as situações em que, de um monte oriundo de silêncios e conversas com os comigos de mim, nada surge. Dizer que a velhice incorporada na quarta década de idade nos confunde ou nos substrai parece mal visto por aqueles que nos rodeiam. No entanto, ainda ficamos pior vistos perante quem somos ou quem julgamos que já fomos.
Escrevo agora para me desculpar e tentar redimir aos comigos de mim que me acompanham no quotidiano mas que não têm de mim a devida atenção. Sinto-lhes falta, mas não me resta senão aumentar a espessura da redoma que nos separa.
Talvez seja assim a vida ou a morte aos poucos. Limitadas ao morrer um pouco para viver o que tiramos à vida. Concentrar-me, então,um desgosto quase impaciente contra o qual nós obrigam a ser resilientes porque tu és só um e mais ninguém, "escolhe quem queres ser, escolhe que história queres escrever de ti, tens que escolher. Pois nunca terás a tua própria biblioteca ou quem ta leia".
Estou guardada numa coluna, mas não me encontro lá. Um porto de abrigo onde me aqueço, quando há tempo. Mas nunca há tempo.
Há também os que dizem "não vás por aí", mas não sabem nem julgam que talvez já conheçamos demasiados caminhos que já só "tanto faz, já sei onde vai dar".
Sinto falta de uma viagem de comboio sem pressas, de um destino sem esperas, de um ir sem ter quando voltar. Sinto falta de um querer mais que um bem querer apesar de não ter nada para dar.
E, em simultâneo, dá vontade de parar, de esquecer, de esquecer que se deve o que não se deve, e de lembrar que só devemos dar o que há e nada mais.
Procuras a solidão na tua companhia, mas não sais porque já não conheces quem te acompanha, e por isso reconheces que o melhor é ficar no calor dos lençóis que, ao menos, mesmo que demorado, vão retribuindo alguma coisa ao corpo trémulo que só desejavas ver incandescente. Tu e os teus contigos de ti.
Eu fico aqui, com os desconhecidos, a tecer desrealidades virtuosas motivadas por outras realidades que talvez sejam as mais verdadeiras.
Eu e os comigos de mim.