Já em tempos escrevi sobre ser mulher e sobre a vontade de voltar a ser criança. Já senti a vontade de ser tão pequenina, o possível para voltar para dentro da minha mãe, uma das minhas mulheres.
Ser mulher não se compara sequer ao facto de se ter um corpo ou de se saber o que se faz com ele, mas tanto mais ter uma cabeça e um coração e, na nossa razoabilidade, conseguir conjugar as duas coisas. O corpo fica para o fim nas coisas que completam a mulher. Suponho.
Houve alturas em que acreditei que ser mulher era o que antes disse, saber as limitações do nosso corpo, mas é tanto e tão mais que isso. É prepararmo-nos para criar alguém que nas situações difíceis, queira recorrer-nos, e nas situações mais tranquilas, queira tranquilizar-nos. Mas o desejar não passa por exigir, e o querer não significa ter que ter. Sejamos então mulheres, muitas vezes sacrifício de nós próprias para criar. As mulheres precisam de nunca se sentir gastas ou vazias, as mulheres precisam de nunca se sentir usadas ou enganadas, e esse conhecimento que é necessário para que sejam mulheres, é metafísico, vai além daquilo que podemos fazer com o nosso corpo, vai além do saber dizer que sim ou que não, e é tanto não ter que passar pela vontade de voltar, mas sabendo que teremos sempre o refúgio da nossa mulher, da nossa mãe. Eu quero muito as mulheres da minha vida. Minha mãe, minha irmã, minha avó. Aquelas todas que por tantas vezes, acredito, tiveram vontade de voltar para a barriguinha das mulheres delas.