domingo, 25 de janeiro de 2015
No final do início daquela noite o baralho estava inteiro. Uma carta para cada lado indicava que havia já algum tempo que não jogávamos a perder. Acontece que ganhámos. Ficou montado o cenário típico de cinema, gravado no meu corpo, ficaste, em mim. Nada disso me disse que o final desse início seria o fim. Impregnados da justiça com que nos julgámos, foi entre tantas, entre nós, mais uma noite no repertório. Mais um sabor nos teus sabores, mais um cortejo de esplendores que guardámos só para nós, e enfim, sós, cheios de tudo, aquele olhar mudo que não engana. Aquele carinho com que apagámos a nossa gana de calor. Fica assim para nós, o nosso filme escondido. Não foi marcado a não ser na nossa mente, tal sala de cinema, tal poema. Nós.
segunda-feira, 12 de janeiro de 2015
Sou dona de tudo o que não tentei, até das angústias cerradas, nevoeiro pintado de luzes nas estradas. Sou dona dos poucos propósitos e das indignações, daquilo que me fez minha e das suas razões. Sou dona daquilo que pintei, do que escrevi, da minha herança de sacrifícios e de pequenos tudos que já vivi. Chamei-lhes "tudos".
Sou dona dos anos, do tempo que agarro, sou dona do tempo que perco sentada nesse raro esquema de futuros onde me deixo inconsciente dos pequenos-grandes segundos que passam. Indignada.
Fui tudo o que não me deixei amar e por quem não me deixei ser amada. E ao final das contas não vejo as luzes do outro lado da estrada. Fiz-me potente e impotente, senhora e mulher imponente, castrada por querer ser mais, e ao final das contas, os dias vão sendo acabados todos iguais. Fintados os artifícios remato um a seguir ao outro no leito onde me aconchego, e a procura de mim vai sendo cada vez mais clara, demasiado clara. Ai, sou tal ave rara! Rara, inconscientemente clara. Já não me servem de nada palavras difíceis, mas não me encaixo nesse pragmatismo que me pede o mundo. E ele pede-mo de tão fundo, do mais fundo de mim. Quero lá saber do mundo, quero, em paz, cultivar-me assim.
Sou dona dos anos, do tempo que agarro, sou dona do tempo que perco sentada nesse raro esquema de futuros onde me deixo inconsciente dos pequenos-grandes segundos que passam. Indignada.
Fui tudo o que não me deixei amar e por quem não me deixei ser amada. E ao final das contas não vejo as luzes do outro lado da estrada. Fiz-me potente e impotente, senhora e mulher imponente, castrada por querer ser mais, e ao final das contas, os dias vão sendo acabados todos iguais. Fintados os artifícios remato um a seguir ao outro no leito onde me aconchego, e a procura de mim vai sendo cada vez mais clara, demasiado clara. Ai, sou tal ave rara! Rara, inconscientemente clara. Já não me servem de nada palavras difíceis, mas não me encaixo nesse pragmatismo que me pede o mundo. E ele pede-mo de tão fundo, do mais fundo de mim. Quero lá saber do mundo, quero, em paz, cultivar-me assim.
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